LEITURA 12.6

SELLTIZ, Claire e outros. Métodos de pesquisa nas relações sociais. 2 ed. São Paulo, Editora Herder e Editora da Universidade de São Paulo, 1967. Capítulo 7. Coleta de dados. Questionários e entrevistas. Tipos de entrevistas e questionários. p. 286-300. 




Tipos de Entrevistas e Questionários

A forma de entrevistas e questionários pode variar muito. As entrevistas podem ser rigidamente padronizadas, nas quais as perguntas e as respostas alternativas permitidas são preestabelecidas, ou podem ser completamente assistemáticas nas quais as perguntas propostas e as respostas permitidas não são estabelecidos antes da entrevista. Embora a amplitude possível da estrutura do questionário seja mais limitada, também ai é possível certa variação.

 

ENTREVISTAS E QUESTIONÁRIOS PADRONIZADOS

Na entrevista ou no questionário padronizados, as perguntas são apresentadas, a todas as pessoas, exatamente com as mesmas palavras e na mesma ordem. Evidentemente, a razão para a padronização é assegurar que todas as pessoas entrevistadas respondam à mesma pergunta. Se um entrevistador pergunta: "Você gostaria que os impostos fossem reduzidos no próximo ano?", e outro pergunta: "Você pensa que uma redução de impostos no próximo ano seria desejável?", as respostas podem não ser comparáveis. As diferenças na ordem das perguntas também podem influir no sentido e nas consequências de determinada pergunta. A pergunta sobre a conveniência de uma redução de impostos poderia ser respondida de forma diferente se fosse posterior a uma pergunta sobre a necessidade de desenvolvimento de mísseis intercontinentais e se fosse posterior a uma pergunta sobre o orçamento da pessoa que responde.

No entanto, as entrevistas e os questionários padronizados podem diferir quanto à sistematização das perguntas empregadas. Podem apresentar respostas alternativas fixas, ou podem deixar a pessoa com liberdade para responder de acordo com suas palavras.

 

PERGUNTAS COM "ALTERNATIVAS FIXAS." Uma pergunta com "alternativa fixa" (ou "fechada") é aquela em que as respostas estão limitadas às alternativas apresentadas. Estas podem ser apenas Sim ou Não, mas podem também permitir a indicação de vários graus De aprovação ou desaprovação, ou podem consistir de uma série de respostas, dentre as quais a pessoa escolhe uma, como a mais próxima de sua posição. A seguir são apresentados alguns exemplos de questões com alternativas fixas:

Qual a classe social em que você se colocaria - classe média, classe baixa, classe trabalhadora, ou classe alta?

Para o nosso levantamento, precisamos de uma indicação grosseira da renda de sua família. Você não se incomodaria de dizer em que classe cai essa renda?

 

Abaixo de 1.000 dólares por ano

De 1.000 a 2.000 dólares

De 2. 000 a 3. 000 dólares

De 3.000 a 4.000 dólares

De 4.000 a 5.000 dólares

Mais de 5.000 por ano

 

Coloque um l à frente daquilo que você considera mais importante ter ou fazer para progredir na vida. Coloque um 2 à frente da que, a seguir, considera mais importante, etc.

---------- "proteção" ---------- inteligência

---------- boa sorte ---------- trabalho

Você tem automóvel? --- Sim --- Não

Como você provavelmente já sabe, o Governador do Estado de Arkansas convocou a Guarda Nacional para impedir que as crianças negras frequentassem as escolas secundárias de Little Rock que anteriormente, só eram frequentadas por crianças brancas. O que você acha desse comportamento? Você diria que:

As respostas a perguntas fechadas já estão adequadas a receberem codificação e, posteriormente, passarem pelo processamento de dados manual e mediante computador.

As perguntas desse tipo são essencialmente iguais, tanto nas entrevistas quanto nos questionários. A única razão para usar entrevistas, e não questionários, com esse tipo de material, é atingir pessoas que não seriam capazes de preencher questionários ou não estariam dispostas a fazê-lo.

PERGUNTAS "ABERTAS". A pergunta "aberta" destina-se a permitir uma resposta livre, e não limitada por alternativas apresentadas. A característica distintiva das perguntas abertas é o fato de apenas apresentarem uma questão, mas não apresentam nem sugerem qualquer estrutura para a resposta; a pessoa tem a oportunidade de responder com suas palavras e com seu quadro de referência.

Eis alguns exemplos de perguntas abertas de entrevistas:

Agora, que você vive em ---------- há ---------- anos, poderia dizer-me o que acha desta cidade? a. Do que você gosta mais na cidade?

b. Do que você não gosta na cidade?

c. O que me diz de seu bairro? O que você acha dele?

d. O que você acha da vida num conjunto residencial público?

Nos questionários, as perguntas e a ordem de sua apresentação são preestabelecidas; é impossível fazer perguntas suplementares. Quando as perguntas abertas são usadas em entrevistas padronizadas, as perguntas e sua ordem são preestabelecidas, mas o entrevistador tem liberdade para repetir a pergunta se a resposta não for adequada ao que se perguntou, bem como para usar, segundo o seu critério, interrogações não-diretivas, como, por exemplo: "Você teria mais alguma coisa a dizer? O que faz você pensar que..... ? Por que? De que maneira ... ?", etc. A tarefa do entrevistador é estimular o entrevistado a falar livremente e a dizer tudo, ao responder às perguntas incluídas na ficha da entrevista, e deve fazer também um registro literal de suas respostas. Geralmente, não tem liberdade para propor novas perguntas, a não ser para esclarecer o sentido das respostas, e essas novas perguntas não podem ser orientadoras.

 

VANTAGENS E DESVANTAGENS DE PERGUNTAS ABERTAS E PERGUNTAS COM ALTERNATIVAS FIXAS. As perguntas de alternativas fixas têm as seguintes vantagens: são "padronizadas", facilmente aplicáveis, analisáveis de maneira rápida e relativamente pouco dispendiosas. Frequentemente, a análise de perguntas abertas é difícil e dispendiosa. É preciso criar categorias para a análise, treinar os codificadores, e as respostas devem ser codificadas em uma das categorias antes de serem tabuladas e estatisticamente analisadas. A análise das perguntas abertas, comparada ao processo simples de tabulação de respostas pré-codificadas às perguntas fechadas, é complexa e muitas vezes difícil. (15)

No entanto, do ponto de vista da obtenção de informação necessária para determinada pesquisa, cada tipo de pergunta tem certas vantagens e certas desvantagens. Uma pergunta fechada pode aumentar a segurança de que as respostas são dadas num quadro de referência significativo para o objetivo da pesquisa e sob uma forma utilizável na análise. Por exemplo, se não se apresentam respostas alternativas para a pergunta: "Em média, com que frequência você vai ao cinema?", uma pessoa pode responder "não muito frequentemente"; outra, "quando tenho encontro com namorada";' outra, "apenas quando existe alguma coisa que eu desejo muito ver." Se o pesquisador está interessado na frequência ao cinema, tais respostas não são utilizáveis. A apresentação de uma lista de verificação com estimativas específicas ("mais de uma vez por semana", "aproximadamente uma vez por semana", "aproximadamente três vezes por semana", etc.) exige que a pessoa coloque suas respostas em termos utilizáveis.

Ás vezes, a apresentação de respostas alternativas ajuda a esclarecer o sentido da pergunta. É mais fácil que as pessoas compreendam a pergunta: "Você é casado, solteiro, viúvo ou divorciado?", que a pergunta: "Qual o seu estado civil?" Esta função de esclarecimento pode ser importante, não apenas com relação a palavras cujo sentido pode não ser conhecido por todos, mas também com relação a conceitos que podem não ser conhecidos pela pessoa que responde. Um estudo de Gross, Mason e McEachern (1958) sobre o papel de superintendente de escolas dá um exemplo disso. Um aspecto desse estudo referia-se à percepção, pelo superintendente, de conflitos de papéis (definidos pelos pesquisadores como exposição a expectativas incompatíveis de diferentes grupos). As perguntas abertas não conseguiram respostas significativas para o conceito de "conflito de papéis"; a experimentação com frases diferentes não obteve êxito. Finalmente, passaram a usar o processo de iniciar a entrevista com descrições de situações que incluíam problemas enfrentados por todos os superintendentes (por exemplo, critérios para contratação e promoção de professores) e, ao mesmo tempo, algumas ações alternativas fixas que poderiam ser realizadas. A pessoa era solicitada a dizer quais, dentre essas ações, vários grupos ou indivíduos especificados (por exemplo, sua comissão escolar) esperariam que ela escolhesse. Esse processo parecia esclarecer o conceito; depois, os entrevistadores poderiam obter respostas significativas a perguntas abertas sobre outras situações de conflito de papel que o superintendente tivesse encontrado.

Uma função semelhante de respostas alternativas é esclarecer a dimensão através da qual as respostas devem ser procuradas. Considere-se esta pergunta: "Você está satisfeito com seu ordenado atual?". Uma pessoa pode responder: "Não; gostaria de ganhar 100.000 dólares por ano". Outra pode dizer: "Estou; acho que a escala de ordenados em nossa fábrica é justa; ganho tanto quanto os colegas que fazem o mesmo tipo de trabalho em outros lugares." A pergunta não envolve palavras ou conceitos difíceis. Mas uma pessoa respondeu em função de seu nível de aspiração (ou fantasia), enquanto que outra respondeu em função de um julgamento da eqüidade de seu ordenado. A classificação da primeira como insatisfeita e da segunda como satisfeita pode ser enganadora; se ambas tivessem respondido de acordo com as duas dimensões, ambas poderiam ter dito "Não", em função do nível de aspiração, mas "Sim", em função da justiça da escala de ordenados. Uma apresentação mais exata da pergunta aberta poderia eliminar essa dificuldade, através da indicação mais clara da dimensão suposta, ou de perguntas separadas para as duas dimensões. No entanto, muitas vezes é possível indicar mais claramente a dimensão na qual se pedem as respostas através de uma série de respostas alternativas, e não pela apresentação da pergunta.

Finalmente, a questão fechada pode exigir que a pessoa que responde faça um julgamento sobre sua atitude, ao invés de deixar isso para o entrevistador ou o codificador. Isso pode ser desejável ou não, de acordo com a natureza da pergunta. Em alguns problemas, a pessoa que responde está numa posição melhor para julgar. Suponha-se que, ao responder à pergunta: "Até que ponto você está satisfeito com seu emprego?", uma pessoa diga: "Bem, gosto de algumas coisas do emprego, mas não de outras. Meu chefe é bem camarada; não repreende a gente por qualquer coisinha. A fábrica é justa no sistema de promoções e coisas desse tipo. Mas é um trabalho horrivelmente sujo, o edifício é velho e está caindo aos pedaços; também não existe um lugar decente para a gente almoçar." Digamos que o plano de análise exija a classificação de atitudes através da seguinte escala: nitidamente insatisfeito, mais insatisfeito que satisfeito, mais ou menos, mais satisfeito que insatisfeito, nitidamente satisfeito. O codificador pode achar difícil decidir em qual das três categorias intermediárias deve colocar esse homem. Mas este poderia ter pouca dificuldade para julgar, desde que recebesse as posições alternativas.

No entanto, quase todas essas vantagens de perguntas com alternativas fixas têm desvantagens correspondentes. Uma das principais deficiências da pergunta fechada é o fato de impor uma apresentação de opinião num problema a respeito do qual a pessoa não tem qualquer opinião. Muitos indivíduos não formularam claramente, nem cristalizaram opiniões sobre muitos problemas; essa característica importante tende a não ser revelada por uma pergunta fechada. A inclusão de uma alternativa "não sei" pode ajudar a indicação de falta de opinião cristalizada, mas a tendência, em muitas entrevistas desse tipo, é exigir uma resposta definitiva e aceitar o "não sei" apenas em último caso. Sob essa pressão, a resposta escolhida por uma pessoa pode ser um artifício das palavras ou das frases específicas da pergunta ou das respostas alternativas apresentadas. Suponha-se que perguntemos: "Você aprova ou desaprova a Doutrina Eisenhower de ajuda aos países do Oriente Médio ameaçados pela agressão comunista?". É fácil dizer "aprovo" ou "desaprovo", e muitas pessoas podem achar que isso é menos desagradável que admitir que não conhecem essa doutrina e não têm opinião sobre ela. Na pergunta fechada, a resposta é aceita por seu valor aparente. As perguntas abertas, sobretudo quando são usadas nas entrevistas e podem ser acompanhadas por perguntas auxiliares, dão indicação muito melhor do fato de a pessoa ter ou não qualquer informação sobre o problema, ter ou não uma opinião claramente formulada a respeito, bem como sobre a intensidade de seu sentimento a respeito.

Mesmo quando uma pessoa tem opinião clara, uma pergunta com alternativa fixa pode não dar uma representação adequada disso, porque nenhuma das escolhas corresponde exatamente à sua opinião, ou porque não permite restrições. Considere-se a seguinte pergunta: "Quais das seguintes considerações são mais importantes para você, ao escolher um emprego: trabalho interessante; oportunidade para assumir responsabilidade; ambiente agradável; companheiros com afinidades, oportunidade para progresso; elevado salário; segurança. Coloque um l na que é mais importante para você, um 2 naquela que, a seguir, é mais importante, etc." Suponhamos que os itens abranjam a amplitude de considerações significativas para determinada pessoa, e que ela tenha opinião clara. Mas esta opinião inclui intercorrelações entre os fatores. De modo geral, o trabalho interessante pode ser mais importante para ela que salário elevado. No entanto, se puder escolher entre dois empregos, um dos quais paga o dobro do outro, mas é ligeiramente menos interessante, pode escolher o que oferece maior salário. Ou pode haver um limite inferior de salário, abaixo do qual pensa que não pode aceitar o emprego, por mais interessante que seja o trabalho. Essas limitações podem ser apresentadas na resposta a uma pergunta aberta; uma pergunta fechada não apenas não as prevê, mas até desestimula a pessoa que responde a pensar nelas.

A omissão de possíveis respostas alternativas pode provocar um viés. Mesmo quando existe espaço para "outras" respostas, muitas pessoas limitam suas respostas às alternativas apresentadas. A omissão de uma alternativa pode mudar seriamente a resposta mesmo a uma questão de fato - por exemplo, as revistas lidas pelas pessoas. Num estudo de candidatos que foram aceitos por determinada universidade, mas não a frequentaram as pessoas receberam uma lista de razões para o fato de não terem feito a matrícula. As razões incluíam alguns fatores - por exemplo, localização da universidade, seu preço, o fato de não ser mista, o fato de não apresentar os cursos desejados, etc. No entanto, não se incluiu a possibilidade de que o candidato tivesse ido finalmente para outra universidade porque esta tinha, de modo geral, maior reputação acadêmica. Embora alguns incluíssem isso no espaço reservado para "outras razões", não havia recurso para avaliar quantos outros a indicariam se tivesse sido incluída entre as alternativas sugeridas. A não ser que possamos ter razoável certeza, a partir de possibilidades lógicas ou de pesquisa anterior, de que as alternativas apresentadas abrangem adequadamente a amplitude completa de respostas prováveis, é mais seguro usar uma pergunta aberta, que não provoca o viés das respostas através de sugestão de algumas, mas não de outras.

O fato de as palavras das perguntas serem as mesmas para todas as pessoas pode esconder o fato de diferentes pessoas darem diferentes interpretações, algumas das quais podem ser muito diversas das pretendidas pelo entrevistador. Evidentemente, essa possibilidade existe nas perguntas abertas e nas fechadas, mas é mais fácil que passe despercebida nestas últimas. Um exemplo de interpretações feitas a partir de diversos quadros de referência - de maneira a tornar obscuro o sentido das respostas obtidas - foi descrito por Crutchfield e Cordon (1947). Um levantamento nacional usou a seguinte pergunta: "Depois da guerra, você gostaria de ver muitas mudanças ou reformas nos Estados Unidos, ou preferiria que o país permanecesse mais ou menos como era antes da guerra?" A maioria das pessoas respondeu que desejava que o país permanecesse "mais ou menos como era." No estudo de acompanhamento foi feita a mesma pergunta, mas nesse caso era seguida por outras perguntas complementares para verificar em que as pessoas pensavam ao responder à pergunta. Os investigadores identificaram sete quadros de referência: questões internas (condições de emprego, padrão de vida, etc.); aperfeiçoamentos técnicos (melhores transportes, comunicações, etc.); questões políticas, e assim por diante. Parece claro que não se justifica qualquer interpretação única das respostas à pergunta fechada.

Desta discussão das relativas vantagens e desvantagens de perguntas abertas e fechadas, parece que ambas diferem quanto aos objetivos para os quais são apropriadas. As perguntas fechadas são mais eficientes quando as possíveis alternativas de respostas são conhecidas, limitadas quanto ao número e bem distintas. Por isso, são adequadas para a obtenção de informação sobre fatos (idade, educação, casa própria, quantidade da renda, etc.) e para expressões de opiniões sobre questões a respeito das quais as pessoas têm opiniões claras. As perguntas abertas são necessárias quando a questão é complexa, quando não se conhecem suas dimensões significativas, ou quando o interesse da pesquisa é a exploração de um processo ou da formulação de uma questão pelo indivíduo. A pergunta fechada tem a vantagem de focalizar a atenção - da pessoa que responde - na dimensão do problema no qual o pesquisador está interessado; por isso mesmo, não apresenta informação a respeito da formulação do problema pela pessoa que responde, do quadro de referência no qual o percebe, dos fatores que para ela são salientes, das motivações subjacentes às suas opiniões. Quando tais questões constituem o foco de interesse, são essenciais as perguntas abertas.

Lazarsfeld (1944) sugeriu que o desenvolvimento de uma ficha de pergunta fechada seja precedido por entrevistas mais intensivas e mais livres com uma subamostra da população, a fim de ser possível descobrir a amplitude de respostas prováveis, as dimensões vistas como significativas e as várias interpretações possíveis para as palavras da pergunta. A partir dessa exploração preliminar, é possível formular perguntas fechadas mais significativas. Sugeriu também outro método para empregar os dois tipos de pergunta, de forma que uma complemente a outra: depois de um levantamento com questões fechadas, é possível fazer entrevistas mais intensivas com uma subamostra, a fim de penetrar mais profundamente nas áreas que parecem significativas. Para muitos objetivos, uma combinação de perguntas abertas e fechadas é mais eficiente; uma entrevista ou um questionário não precisam ser compostos exclusivamente de um tipo ou outro.

 

ENTREVISTAS MENOS SISTEMÁTICAS

Para alguns problemas de pesquisa, é adequada uma abordagem ainda mais flexível que a apresentada por uma entrevista padronizada com perguntas abertas. Em grande parte por causa da influência da entrevista clínica e do trabalho antropológico de campo, desenvolveu-se uma grande variedade de entrevistas, nas quais não são preestabelecidas nem as perguntas exatas feitas pelo entrevistador, nem as respostas que a pessoa pode apresentar. Tais entrevistas apresentam várias formas e recebem vários nomes - a entrevista "focalizada", a entrevista "clínica", a entrevista "profunda", a "não-diretiva", etc. Comumente são usadas para um estudo mais intensivo de percepções, atitudes, motivações, etc., do que o permitido por uma entrevista padronizada, com perguntas abertas ou fechadas. Êste tipo de entrevista é intrinsecamente mais flexível, e evidentemente exige mais habilidade do entrevistador que os tipos padronizados. Evidentemente, também, essa abordagem é impossível num questionário.

A flexibilidade da entrevista assistemática ou parcialmente assistemática, se adequadamente usada, ajuda a revelar os aspectos afetivos e carregados de valor das respostas da pessoa, bem como a verificar a significação pessoal de suas atitudes. Não apenas permite que a definição, pelo entrevistado, da situação de entrevista se exprima de maneira completa e minuciosa; deve também despertar o contexto social e pessoal de crenças e sentimentos. Esse tipo de entrevista atinge seu objetivo na medida em que as respostas da pessoa são espontâneas e não forçadas, muito específicas e concretas, e não difusas e gerais, reveladoras do eu e pessoais, e não superficiais.

A liberdade do entrevistador é, ao mesmo tempo, a principal desvantagem de entrevistas desse tipo. Freqüentemente, a flexibilidade resulta em falta de comparabilidade de uma entrevista com outra. Além disso, sua análise é mais difícil e mais demorada que a de entrevistas padronizadas. Existe pouca dúvida quanto à sua utilidade, nas mãos de pesquisador hábil, como fonte de hipóteses que mais tarde podem ser submetidas a uma verificação sistemática. As entrevistas parcialmente sistemáticas às vezes são usadas, também, em estudos de verificação de hipóteses. No entanto, a falta de comparabilidade entre as entrevistas e a complexidade da análise fazem com que sejam menos eficientes, para esse objetivo, que as entrevistas padronizadas.

Na entrevista focalizada, segundo a descrição de Merton, Fiske e Kendall (1956), a principal função do entrevistador é focalizar a atenção em determinada experiência e seus efeitos. O entrevistador sabe, antecipadamente, quais os tópicos ou quais os aspectos de uma questão que deseja abranger. Esta lista de tópicos ou aspectos deriva de sua formulação do problema de pesquisa, de sua análise da situação ou da experiência de que participou o entrevistado, bem como de hipóteses baseadas em teoria psicológica ou sociológica. Essa lista constitui uma estrutura dos tópicos que devem ser abrangidos, mas a maneira de propor as perguntas e sua ordem dependem, em grande parte, de decisão do entrevistador. Êste tem liberdade para explorar razões e motivos, indagar a respeito de direções que não foram previstas. Embora o entrevistado tenha liberdade para exprimir integralmente sua sequência de pensamento, a orientação da entrevista está claramente nas mãos do entrevistador. Deseja tipos definidos de informação, e parte de sua tarefa é limitar o entrevistado à discussão de problemas a respeito dos quais deseja conhecimento.

Merton, Fiske e Kendall (1956) assim descreveram esse tipo de entrevista:

A entrevista focalizada tem sido usada, de forma eficiente, na criação de hipóteses que procuram verificar quais são os aspectos de uma experiência específica (uma transmissão radiofónica, uma fita de cinema, etc.) que provocam mudanças na atitude dos que foram expostos a tal experiência. O entrevistador, que antecipadamente tem uma análise de conteúdo da experiência estimulante, pode, em geral, distinguir entre os fatos objetivos do caso e as definições subjetivas da situação. Assim, está prevenido quanto à possibilidade de "percepção seletiva", e preparado para explorar suas consequências. Suponha-se, por exemplo, que estejamos interessados por reações a uma série de figuras de jornais que apresentam condições de habitação numa favela, destinados a emprego numa campanha para leis mais severas quanto a habitação ou para desfavelamento e desenvolvimento urbano. As fotografias mostram escadas quebradas, papel descolado na parede, buracos por onde se diz que entram ratos - de modo geral, condições que podem ser atribuídas, razoavelmente, à manutenção inadequada pelo proprietário, e não a desleixo dos locatários. Uma pessoa, ao discutir os retratos, diz: "Isso mostra que essas pessoas de classe baixa não cuidam de suas casas; é inútil tentar dar-lhes casas decentes, pois de qualquer forma acabam por quebrá-las; você sabe que, como se costuma dizer, se você lhes der banheiras, nestas colocam carvão." O entrevistador, como sabe que o conteúdo dos retratos não pretende dar essa impressão, pode acompanhar a interpretação da pessoa, procurando ver se existem, nas fotografias, aspectos não considerados que podem dar uma base para essa impressão, ou se esta decorre de opiniões estereotipadas da pessoa, etc.

A definição de uma entrevista focalizada pode ser ampliada, de forma a incluir qualquer entrevista em que o entrevistador conheça, antecipadamente, os aspectos de uma experiência que deseja que o entrevistado abranja em sua discussão, ainda que o pesquisador não tenha observado e analisado a situação específica de que o entrevistado participou. Por exemplo, num estudo sobre o funcionamento de um programa de trabalho em tempo parcial para ginasianos, o pesquisador pode preparar um conjunto de perguntas que devem ser formuladas, ainda que não conheça a situação específica do trabalho de cada um dos estudantes. Essa lista poderia incluir perguntas como as seguintes: "Será que o estudante sente ter recebido uma imagem adequada do trabalho, antes de começá-lo? Será que sente que o emprego está em nível adequado às suas habilidades?", etc.

Evidentemente, quanto mais minucioso o conhecimento do pesquisador sobre a situação de que participou a pessoa entrevistada, e quanto mais específicas as suas hipóteses, mais exatamente pode delinear antecipadamente as questões a serem incluídas na entrevista.

Um pouco semelhante à entrevista focalizada é a entrevista clínica; a principal diferença entre ambas é que a entrevista clínica se interessa por motivações e sentimentos amplos e subjacentes, ou pelo transcorrer das experiências de vida do indivíduo, e não pelos efeitos de uma experiência específica. Neste tipo de entrevista, além disso, o entrevistador sabe quais são os aspectos da experiência ou do sentimento que deseja ver discutidos pelo entrevistado, mas também aqui o método para provocar a informação é escolhido pelo entrevistador. A entrevista de "história pessoal" - usada em assistência social, administração de prisões, clínicas psiquiátricas e na pesquisa social que utiliza histórias de vida de indivíduos - é talvez o tipo mais comum de entrevista clínica. Os aspectos específicos da história de vida do indivíduo que o entrevistador deve obter são determinados, como em todos os instrumentos de coleta de dados, pelo objetivo para o qual se obtém a informação.

Por exemplo, Lee (1957) estava interessado em estudar a possibilidade de que os adolescentes viciados em heroína possam ser predispostos ao vício por experiências de família que provocam determinadas características pessoais. A partir de trabalho anterior com jovens viciados, Lee e seus colaboradores realizaram estudos afins, com a hipótese de que, entre meninos que viviam no mesmo bairro e, assim, estavam expostos, grosseiramente, às mesmas oportunidades para o uso de heroína, os viciados tendiam a distinguir-se dos não-viciados pelas seguintes características: têm funcionamento relativamente fraco do ego, funcionamento deficiente do superego, identificação masculina inadequada, ausência de orientação realista de classe média, descrença nas principais instituições sociais. A seguir, os pesquisadores se perguntaram quais seriam os tipos de ambiente de família que, segundo se poderia esperar, estimulariam ou acentuariam tais características. A partir de considerações teóricas - retiradas, em grande parte, da teoria psicanalítica - elaboraram uma lista de circunstâncias ou acontecimentos de vida de família que, segundo se poderia esperar, contribuiriam para cada uma das cinco características. Por exemplo, consideraram que alguns fatores poderiam ser provocadores de fraco funcionamento do ego: cuidado inadequado de doenças infantis, relações discordantes entre os pais, figura materna apaixonada ou hostil com relação ao menino, um dos pais ter aspirações irrealisticamente elevadas ou baixas para o menino, etc.

Parecia claro que a entrevista relativamente assistemática seria um método mais adequado para a obtenção da informação necessária que uma série padronizada de perguntas. Por isso, os entrevistadores visitaram os pais dos jovens incluídos no estudo - uma amostra de viciados e um grupo de controle de não-viciados - e os estimularam a falar livremente a respeito dos seus filhos. Os entrevistadcres não tinham perguntas estabelecidas. Foram instruídos a abranger os seguintes aspectos básicos: as características físicas do bairro e da casa, a composição da família e do lar, a saúde da família, a situação atual e do início de adolescência do rapaz, educação infantil e socialização, relações na família, relações entre a família e o "mundo externo". O guia de entrevista indicava alguns subtópicos que deveriam ser abrangidos sob cada um desses tópicos principais; por exemplo, sob o tópico "educação e socialização na infância", o entrevistador deveria obter informação sobre desenvolvimento inicial, disciplina e padrões de tratamento dado pelos pais, experiências iniciais de socialização, experiências iniciais na escola, etc. Sob cada um desses subtópicos, o guia da entrevista enumerava pontos mais específicos que deveriam ser abrangidos.

Na entrevista não-diretiva, a iniciativa está ainda mais inteiramente nas mãos do entrevistado. O termo não-diretivo começou a ser empregado a partir de um tipo de psicoterapia em que o paciente é estimulado a exprimir seus sentimentos, sem sugestões ou perguntas do terapeuta. Em sentido mais limitado, a não-orientação está implícita na maior parte das entrevistas; vale dizer, embora o entrevistador deva fazer perguntas sobre determinado assunto, tem instruções para não viesar ou orientar o entrevistado para uma ou outra resposta. (16) No entanto, na entrevista não-diretiva a função do entrevistador é apenas estimular o entrevistado a falar a respeito de determinado assunto, com um mínimo de orientação ou perguntas diretas. Estimula o entrevistado a falar tudo e livremente, pelo fato de estar atento aos sentimentos apresentados pelo entrevistado e por um reconhecimento afetuoso - mas não aprovação - dos sentimentos da pessoa. Talvez as observações mais típicas do entrevistador, numa entrevista não-diretiva, sejam: "Você acha que...", ou "Diga mais alguma coisa", ou "Por que?", ou "Interessante isso, não?", ou apenas "Hum... hum".

A função fundamental do entrevistador na entrevista não-diretiva é servir como um catalizador para uma expressão compreensiva dos sentimentos e crenças da pessoa, bem como do quadro de referência em que seus sentimentos e crenças adquirem significação pessoal. Para atingir esse objetivo, o entrevistador precisa criar uma atmosfera inteiramente permissiva, em que a pessoa esteja livre para exprimir-se, sem medo de desaprovação, repreensão ou discussão, e sem receber conselhos do entrevistador. (17)

 

 

Notas

15. Para maior discussão da análise de material de entrevista, ver o Capítulo 11.(Pg. 435).

16. Esta afirmação não é válida em "entrevistas de tensão". Neste caso, o entrevistador tenta ver até que ponto a pessoa pode atuar sob a tensão de irritação, depreciação, expressão de hostilidade, etc. O termo também pode ser aplicado a entrevistas em que o entrevistador tenta ver quanta pressão ou tensão é necessária para uma mudança na expressão de opiniões pelo entrevistado.

17. Para discussão mais minuciosa de entrevista não-diretiva, ver Roethlisberger e Dickson (1939) e Rogers (1945).

 

12 - ENTREVISTA E CAMINHOS DA PESQUISA