LEITURA 11.3

RICHARDSON, Roberto Jarry e outros. Pesquisa social; métodos e técnicas. São Paulo, Editora Atlas, 1985. Capítulo 9.  Construção dos questionários. p. 146-157 


 
 9.2 CONSTRUÇÃO DOS OUESTIONÁRIOS 

Goode e Hatt(2) apresentam algumas observações que devem ser consideradas antes da elaboração do questionário.

"Todo questionário deve ter uma extensão e um escopo limitados. Toda entrevista não deve prolongar-se muito além de meia hora, inclusive esta duração é difícil de se obter sem cansar o informante. Os questionários, que a pessoa responde por si mesma, não devem exigir mais de 30 minutos, e são de exigir um tempo mais curto."

"Todo aspecto incluído no questionário constitui uma hipótese, isto é, a inclusão de todos e cada um dos pontos deve ser possível de defender que está trabalhando."

A hora para a elaboração do questionário é a revisão da literatura sobre o tema e a própria experiência do pesquisador. É recomendável fazer uma relação do aspecto necessário de abordar e pedir a especialistas que a revise. De acordo com as novas posições ante a Pesquisa Social, é importante discutir os aspectos a incluir, no questionário, com pessoas-chave - líderes da população-alvo. Isso permitirá a participação dessa população no processo de pesquisa e, evidentemente, melhor conhecimento do pesquisador sobre suas características e interesses, como também um melhor entrosamento entre ambos. A participação da comunidade garante, talvez melhor que os especialistas, os aspectos a serem incluídos no questionário.

Da relação elaborada, surgem perguntas que devem ser cuidadosamente analisadas e discutidas para conseguir ambigüidades controladas à ordem e à extensão do questionário.

Ao planejar o questionário deve-se considerar o tipo de análise que será realizado com os dados obtidos. O pesquisador deve estabelecer as possibilidades de medição de determinada variável, de maneira tal que possa realizar a análise estatística desejada. Por exemplo, se o problema de pesquisa requerer uma análise de regressão, o pesquisador não deverá incluir, no questionário, perguntas que apenas proporcionem dados dicotômicos.

 

9.2.1 Preparação do questionário

Em geral, a preparação de um questionário deve incluir as seguintes operações:

Estes elementos incluem a apresentação do questionário, que solicita a colaboração do entrevistado e agradece a sua participação, e as instruções suplementares. Estas se referem à forma de preenchimento do questionário e incluem indicações sobre a maneira de responder determinadas perguntas.
 

9.2.2 Recomendações para a redação das perguntas
 

Em geral, deve-se ter muito cuidado com a redação das perguntas. Por exemplo, suponhamos que um pesquisador faça a seguinte pergunta: Quantas vezes por mês você briga com sua esposa? A pergunta está mal formulada, pois, por um lado, supõe que o entrevistador esteja casado C, por outro, se casado, que briga com a mulher.

Forma mais adequada de formular a pergunta é a seguinte:

- O Sr. está casado?

1. ( ) Sim.         2. ( ) Não.

Em caso de resposta positiva:

- O Sr. briga com a sua esposa?

1. ( ) Sim.         2.( )  Não.

Em caso de responder sim:

- Em que frequência se dão as brigas com a sua esposa?

1 . ( ) Freqüentemente.         2. ( ) Ocasionalmente.         3. ( ) Raras vezes.

Por último, o pesquisador deve ter cuidado com a interpretação que ele faz das respostas dos entrevistados. Por exemplo, na seguinte pergunta:

Com que frequência o Sr. assiste à missa?

A assistência à missa não reflete a religiosidade ou crença de uma pessoa. Fazer inferência de um fato (assistir à missa) às atividades ou à crença de uma pessoa é um assunto difícil e cuidadoso.

A - DISPOSIÇÃO DAS PERGUNTAS

A preocupação básica nessa etapa da pesquisa é montar o questionário de tal forma que constitua um instrumento facilmente aplicável. Para isso, existem normas precisas que podem ajudar muito na coleta de dados e, posteriormente, na análise da informação.

No questionário existem dois aspectos importantes a serem considerados:

Em relação ao primeiro aspecto, recomenda-se a seguinte distinção tipográfica: O segundo aspecto é um problema de ordem dinâmica. Toda coleta de dados, escrita ou oral, é um processo de interação entre pessoas. Portanto, deve-se procurar uma ordem de perguntas que facilite a interação. Assim, não convém passar bruscamente de um tema a outro; não convém fazer e refazer a pergunta em diferentes partes do questionário etc. O leitor deve lembrar que a coleta de dados é uma conversa entre duas ou mais pessoas que visam solucionar um problema; portanto, devem ser respeitadas as normas de uma conversa desse tipo.

Seguindo essas colocações, pode-se seguir a seguinte ordem nas perguntas:

1º) Introduzir o questionário com perguntas que não formulam problema. Por exemplo, itens sociodemográficos: idade, sexo, estado civil etc.

2º) Em continuação, incluir perguntas referidas à problemática, mas em termos gerais. Por exemplo, se o questionário se refere a fatores que intervêm no aproveitamento escolar, incluem-se perguntas de opinião sobre a escola, os professores, os estudos etc.

3º) Como passo seguinte, incluir perguntas que formam o núcleo do questionário, as mais complexas ou emocionais, pois se supõe que o entrevistado esteja em um estado de ânimo que compreenda esse tipo de perguntas.

4º) Na última parte do questionário incluem-se perguntas mais fáceis que possam proporcionar ao entrevistador e entrevistado uma situação de comportabilidade. É importante incluir, como última pergunta, uma que permita ao entrevistado expressar seus sentimentos relacionados ao processo de coleta de dados. Esse tipo de pergunta permite analisar o questionário e o processo de entrevista.

Tal como ocorre em um diálogo, primeiro se produz a aproximação gradual ao tema; depois, fala-se sobre o tema central e, quando este tiver sido discutido suficientemente, não se diz "até logo" de imediato, mas se relaxa a tensão com uma conversa genérica para após se despedir.

 

B - DISPOSIÇÃO DAS PERGUNTAS PARA FACILITAR A ANÁLISE

As perguntas não devem apenas estar em uma ordem que facilite a coleta de dados, mas também em uma ordem que facilite o tratamento estatístico. Supõe-se que esse tratamento é basicamente um problema de transferência dos dados do questionário a cartões perfurados (IBM). Nesse sentido, duas observações a fazer: primeira, a transferência deve ser a mais direta e fácil possível; segunda, o questionário não deve aparecer sobrecarregado de números ou símbolos.

Algumas sugestões para a disposição de perguntas:

1. É recomendável que coincida o número da pergunta com o número da coluna utilizada no cartão perfurado. Duas séries de números podem ser fonte de erro.

Pergunta 24. Você acha que esta cidade oferece oportunidades educacionais para seus filhos?

Col. 24 do Cartão IBM.

2. É recomendável pré-codificar o questionário. Isto é, incluir no questionário o número da coluna e o número de perfuração correspondente. Assim, o primeiro é escrito na margem direita da pergunta (semelhante ao número de pergunta) e o segundo à esquerda das alternativas de resposta. Exemplo:

Pergunta 32. Qual é a sua renda mensal?

1. ( ) Menos de Cr$ 10.000

2. ( ) 10.000 - 20.000

3. (X) 20.000 - 30.000

4. ( ) 30.000 - 40.000

5. ( ) Mais de Cr$ 40.000

 

3. Em caso de resposta, tais como "não sabe", "não se aplica" ou "não responde", recomenda-se aplicar normas simples e já padronizadas:

- Não sabe "0".

- Não se aplica "9".

- Sem resposta "99".

Assim, ao concluir a codificação de um questionário, tem-se, na margem das folhas, colunas consecutivas com as perfurações codificadas.

Que fazer com as informações na margem das folhas, para transferi-las ao cartão IBM? As duas possibilidades utilizadas são as seguintes:

l . Transferir para folhas especiais a codificação feita no questionário. Mas, ao mesmo tempo, pode produzir novos erros.

2. Transferir diretamente do questionário aos cartões IBM. Esse método evita os possíveis erros cometidos ao transferir às folhas de codificação, mas exige perfuristas capacitados e acarreta o risco de distorção com o texto escrito.

A utilização de um ou outro método depende da qualificação das pessoas que formam a equipe de pesquisadores e do pessoal de perfuração.

C - PRÉ-TESTE

Refere-se à aplicação prévia do questionário a um grupo que apresente as mesmas características da população incluída na pesquisa. Tem por objetivo revisar e direcionar aspectos da investigação.

Em primeiro lugar, o pré-teste não deve ser entendido apenas como uma revisão do instrumento mas como um teste do processo de coleta e tratamento dos dados. Por isso, o instrumento deve ser testado em sujeitos com as mesmas características da população-alvo da pesquisa.

Em segundo lugar, o pré-teste serve para treinar e analisar os problemas apresentados pelos entrevistadores. É recomendável que eles sejam selecionados entre pessoas com experiência no assunto pesquisado. Isso permite aos entrevistadores detectar as dificuldades práticas do questionário e prepara-os para as dificuldades que podem surgir durante a aplicação do questionário definitivo.

Em terceiro lugar, ele é um importante meio para se obter informações sobre o assunto estudado. É por isso que recomenda a utilização, nessa etapa, de perguntas abertas, que permitirão ao pesquisador aprofundar o conhecimento no tema pesquisado.

Em quarto lugar, é um excelente momento para analisar o comportamento das variáveis: deve-se assegurar que elas variem. Em outras palavras, e como já foi visto, deve-se evitar perguntas tão óbvias que mais de 80% dos entrevistados respondam uma mesma categoria, por exemplo:
 
 Nível de escolaridade do pai
Freqüência
  • Primeiro grau
10%
  • Segundo grau
5%
  • Terceiro grau
85%
______
 
100%
No caso anterior, não existe uma variável, pois a grande maioria dos casos respondeu a alternativa "terceiro grau". O que se tem, nesse exemplo, é uma constante. Que fazer para se obter uma informação mais útil e que permita comparação entre grupos? Uma solução radical é suprimir a pergunta, pois a informação não aponta nada novo. Outra solução, menos radical, é reformular a pergunta, desdobrando-a:
 
 
 Nível de escolaridade do pai.
Freqüência
  • Primeiro grau
10%
  • Segundo grau
5%
  • Terceiro grau
40%
  • Mestrado
30%
  • Doutorado
15%
______
 
100%
O exemplo anterior demonstra que a utilização das categorias numa pergunta fechada supõe um conhecimento das características gerais da população indicada na pesquisa. É lógico que em uma população operária as categorias não serão essas, pois a grande maioria dos trabalhadores não passa do 1º grau. Em geral, devem ser evitadas variáveis "óbvias", tais como sexo dos alunos de Pedagogia; grau de escolaridade de um camponês do sertão (não confundir com anos de escolaridade) etc.

Em quinto lugar, o pré-teste é um momento oportuno para analisar as categorias outros e não sabe, das perguntas fechadas. Se muitos responderem essas categorias, a pergunta deve ser reformulada ou as alternativas mudadas:
 
- Que programas de televisão o Sr.(a) prefere?
Freqüência
  • Noticiários
10%
  • Esportivos
15%
  • Humorísticos
20%
  • Outros
55%
_______
 
100%
Evidentemente, devem acrescentar-se categorias, tais como telenovelas, policiais, filmes etc.

No questionário definitivo, a categoria outros deve estar reduzida a uma frequência mínima:
 
 
- Quais são os planos que o Sr.(a) tem para 1989?
Freqüência
1. Ficar neste lugar
20%
2. Sair deste lugar
10%
3. Não sabe
70%
______
 
100%
A pergunta deve ser reformulada, pois é lógico que a pessoa não saiba ainda o que vai fazer daqui a quatro anos.

Em geral, o pré-teste é um momento muito útil para revisar o processo de pesquisa, que não deve ser aproveitado para fazer do questionário um instrumento de monopolização do saber. Existem pesquisadores que, acreditando conhecer muito bem as características de uma população, planejam todo o trabalho, inclusive os instrumentos de coleta, sem uma discussão inicial com representantes dessa população. Assim, utilizam o pré-teste para "traduzir" na linguagem da população suas idéias, sem se preocuparem com os interesses e necessidades das pessoas. É uma posição que não contribui em nada ao diálogo entre pesquisador e "pesquisado". Indubitavelmente, à medida que se reforça esse diálogo, o pré-teste do instrumento servirá para uma discussão mais aprofundada dos temas pesquisados. Assim, tanto pesquisador quanto "pesquisado" experimentam nesse conjunto um processo de aprendizagem. Isso é muito importante de considerar quando se fazem pesquisas com populações de nível cultural e social diferente do pesquisador.



11 - QUESTIONÁRIO COMO INSTRUMENTO DE INVESTIGAÇÃO