LEITURA 11.1 e 11.2

RICHARDSON, Roberto Jarry e outros. Pesquisa social; métodos e técnicas. São Paulo, Editora Atlas, 1985. Capítulo 9. Questionário. Funções e características. p. 142-150.

9 - QUESTIONÁRIO

Existem diversos instrumentos de coleta de dados que podem ser utilizados para obter informações acerca de grupos sociais. O mais comum entre esses instrumentos talvez seja o questionário.

O presente capítulo examinará as funções e características dos questionários, maneiras de construí-los e, finalmente, suas principais vantagens e desvantagens.

9.l FUNÇÕES E CARACTERÍSTICAS

Geralmente, os questionários cumprem pelo menos duas funções: descrever as características e medir determinadas variáveis de um grupo social.

A informação obtida por meio de questionário permite observar as características de um indivíduo ou grupo. Por exemplo: sexo, idade, estado civil, nível de escolaridade, preferência política etc.

A descrição dessas características pode cumprir diversos objetivos. Exemplo: é importante conhecer a idade de um grupo de mulheres, alvo de uma campanha de controle de natalidade, pois a idade influi na aceitação de promoções desse tipo. As características educacionais de um grupo podem contribuir para explicar determinadas atitudes políticas desse grupo. A distribuição salarial de uma população pode dar uma visão bastante clara dos efeitos de determinada política econômica.

Portanto, uma descrição adequada das características de um grupo não apenas beneficia a análise a ser feita por um pesquisador, mas também pode ajudar outros especialistas, tais como planejadores, administradores e outros.

Outra importante função dos questionários é a medição de variáveis individuais ou grupais. Tais questionários podem incluir perguntas unidimensionais. Por exemplo: "Qual é a sua opinião sobre os atuais partidos políticos brasileiros?", ou perguntas múltiplas: vários itens estreitamente ligados à problemática estudada, geralmente constituídos em forma de escalas. Este último tipo de questionário é utilizado para medir diversos fenômenos atitudinais, tais como alienação, autoritarismo, religiosidade etc.

9.1.1 Tipos de questionários

Os questionários não estão restritos a uma quantidade determinada de perguntas, nem a um tópico específico. Existem aqueles que incluem apenas duas ou três perguntas, outros que incluem mais de 100 páginas, dependendo da complexidade das informações a serem coletadas. Por um lado, idade de uma pessoa pode ser conhecida fazendo-se apenas uma pergunta: "Gostaríamos de saber a sua idade: - anos." Por outro lado, se se deseja conhecer as atitudes de uma pessoa para com o Ensino Superior, evidentemente são necessárias várias perguntas visando abranger a multidimensionalidade da problemática.

Atualmente, não existem normas claras para avaliar a adequação de determinados questionários a clientelas específicas. É responsabilidade do pesquisador determinar o tamanho, a natureza e o conteúdo do questionário, de acordo com o problema pesquisado e respeitar o entrevistado como ser humano que pode possuir interesses e necessidades divergentes das do pesquisador. (Este ponto será tratado em páginas a seguir.)

Em geral, recomenda-se que o questionário, para ser aplicado, não ultrapasse uma hora de duração e que inclua diferentes aspectos de um problema, ainda que não sejam analisados em determinado momento. Como afirma Cláudio de Moura Castro, é mais fácil obter informações sobre temas diversos em um só questionário, que aplicar vários questionários que abordam temas específicos.

Duas das classificações de questionários mais utilizadas são aquelas que distinguem os instrumentos:

· pelo tipo de pergunta feita aos entrevistados; e

· pelo modo de aplicação do questionário.

A - TIPO DE PERGUNTA

De acordo com o tipo de pergunta, os questionários podem ser classificados em três categorias: questionários de perguntas fechadas; questionários de perguntas abertas; e questionários que combinam ambos os tipos de perguntas.

I - Questionários de perguntas fechadas

São aqueles instrumentos em que as perguntas ou afirmações apresentam categorias ou alternativas de respostas fixas e preestabelecidas. O entrevistado deve responder a alternativa que mais se ajusta às suas caracteristicas, idéias ou sentimentos.

Existem diversos tipos de perguntas fechadas. As mais utilizadas são as seguintes:

· Perguntas com alternativas dicotômicas. Exemplos:

· Perguntas com respostas múltiplas. Na elaboração de perguntas fechadas, devem ser considerados dois aspectos importantes: Nesse caso, o entrevistado pode duvidar entre classe "alta" e "acomodada", que podem ter o mesmo significado.

A utilização de um questionário com perguntas fechadas depende de diversos aspectos. Primeiro, supõe-se que os entrevistados conheçam a temática tratada no questionário. Segundo, supõe-se que o entrevistador conheça suficientemente bem o grupo a ser entrevistado, de modo que possa antecipar o tipo de respostas a serem dadas. Por exemplo, um pesquisador pode estar interessado em identificar atitudes regionalistas em uma amostra de trabalhadores; é lógico supor que as respostas dos entrevistadores incluirão algumas das cinco regiões do País (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul). A grande maioria dos questionários é elaborada com base em perguntas fechadas:

1. Sexo:

2. Idade: 3. Gosto do meu trabalho: 4. A guerra é um mal necessário: O leitor deve lembrar que existem variáveis que possuem categorias naturais ou universalmente aceitas tais como sexo, cor dos olhos e outras. Nesse caso, recomenda-se o uso de perguntas fechadas. Também existem perguntas com respostas dicotômicas (sim - não; tem - não tem etc.) ou respostas tricotômicas (sim - não - não sabe; alto - médio - baixo; gosto - gosto mais ou menos - não gosto) que se podem formular com alternativas fixas. Mas, em geral, as perguntas que medem opiniões, motivos, fatores, não devem fechar-se pois incluem uma variedade muito ampla de respostas possíveis.

II - Questionários de perguntas abertas

Os questionários de perguntas abertas caracterizam-se por perguntas ou afirmações que levam o entrevistado a responder com frases ou orações. O pesquisador não está interessado em antecipar as respostas, deseja uma maior elaboração das opiniões do entrevistado.

Por exemplo:

l. Qual é a sua ocupação principal?

..................................................................................................................

2. Você gosta das telenovelas? Por favor, justifique

..................................................................................................................

3. De acordo com seu ponto de vista, como deveria ser o relacionamento entre professor e aluno, no 2o. grau?

.................................................................................................................. III - Questionários que combinam perguntas abertas e fechadas

Freqüentemente, os pesquisadores elaboram os questionários com ambos os tipos de perguntas. As perguntas fechadas, destinadas a obter informação sociodemográfica do entrevistado (sexo, escolaridade, idade etc.) e respostas de identificação de opiniões (sim - não, conheço - não conheço etc.), e as perguntas abertas, destinadas a aprofundar as opiniões do entrevistador. Por exemplo: Por que não gosta? Por que gostaria de conhecer? etc.

Geralmente, o pesquisador, visando não fechar totalmente uma pergunta, inclui entre suas alternativas uma categoria outros, aberta:

- Que programa de televisão o Sr.(Sra.) prefere? ( ) Noticiários

( ) Esportivos

( ) Telenovelas

( ) Policiais

( ) Humorísticos

( ) Outros:........................................................

Outros permite que o entrevistado tenha mais liberdade de resposta, o que, na realidade, é difícil de ocorrer. (Ver desvantagens, adiante.) Tal categoria cumpre um papel importante no pré-teste ou na aplicação prévia do questionário. Contribui a determinar, reformular e esclarecer as alternativas das perguntas fechadas. Em outras palavras, se, no pré-teste, essa categoria, em uma pergunta específica, recebe muitas respostas (mais de 25% do total de pessoas que responderam à pergunta), as demais alternativas devem ser reformuladas e completadas. Por exemplo, suponha-se que se aplique um pré-teste a 50 pessoas e a pergunta "nível de escolaridade" apresente os seguintes resultados:

                                            Freqüência

l . Primeiro Grau                          20

2. Segundo Grau                         10

3. Terceiro Grau                           5

4. Outros Analfabetos              15

Logo, no texto definitivo, a pergunta deve incluir mais uma alternativa:

- Nível de instrução: ( ) Não tem.

( ) Primeiro Grau.

( ) Segundo Grau.

( ) Terceiro Grau.

( ) Outros:........................................................

IV - Comparação entre perguntas fechadas e perguntas abertas

Como já vimos, existem temas que podem ser abordados facilmente mediante perguntas fechadas (sexo. nível de escolaridade, estado civil, idade) porque estão, quase sempre, limitados a apenas algumas alternativas. Aspectos como religião, raça, filiação política, podem ser classificados em uma quantidade limitada de categorias, sempre que previamente se tenha uma idéia relativamente clara das características da grande maioria de determinada população. Por exemplo, no Brasil, em uma pergunta sobre religião, as categorias: Católica, Protestante, Afro-Brasileira, incluem a grande maioria da população e poucos responderiam a alternativa outros.

As atitudes são, geralmente, medidas por meio de afirmações com respostas fixas (concordo - indeciso - discordo) a um conjunto de itens que forma uma escala atitudinal fácil de computar e que permite comparações entre pessoas ou grupos.(1)

A pergunta aberta deve ser utilizada quando o pesquisador deseja realizar determinado assunto mas não está familiarizado com a população a ser entrevistada e não pode, portanto, antecipar possíveis respostas. Por exemplo, um estudo sobre os efeitos do PROÁLCOOL nas comunidades rurais do litoral nordestino, realizado por alguém que não conhece as características dessas comunidades.

V - Vantagens das perguntas fechadas

1. As respostas a perguntas fechadas são fáceis de codificar; o pesquisador pode transferir as informações a cartões IBM (se desejar), sem maiores problemas.

2. O entrevistado não precisa escrever; apenas marca com um (X) a alternativa que melhor se lhe aplica. Isso é uma vantagem em caso de pessoas com dificuldades de escrever.

3. As perguntas fechadas facilitam o preenchimento total do questionário. Um instrumento com muitas perguntas abertas é cansativo de responder.

4. No caso de utilizar um questionário por correio, não recomendável, é mais provável que seja devolvido preenchido se as perguntas forem fechadas.

VI - Desvantagens das perguntas fechadas 1. Uma das maiores desvantagens das perguntas fechadas é a incapacidade potencial de um pesquisador de proporcionar ao entrevistado todas as alternativas possíveis de respostas. O entrevistado está forçado a escolher entre alternativas que podem não ajustar-se à sua maneira de pensar. Assim, a informação obtida pelo pesquisador pode ser absolutamente usada, prejudicar a pesquisa e sobretudo desrespeitar a verdadeira opinião do entrevistado. É importante que o pesquisador tenha consciência de que, à medida que fizer resposta, estará refletindo sua posição e não a do entrevistado.

2. Em questionários como as escalas de atitudes, os entrevistados podem cair em uma pauta de respostas. Isto é, responder a primeira alternativa de cada pergunta, com objetivo de terminar o mais cedo possível, sem verificar se se ajustam ou não à sua opinião. Para diminuir os efeitos negativos dessas situações e eliminar os questionários duvidosos, alguns incluem mecanismos para controlar a consistência das respostas do entrevistado.

VII - Vantagens das perguntas abertas

Uma das grandes vantagens das perguntas abertas é a possibilidade de o entrevistado responder com mais liberdade, não estando restrito a marcar uma ou outra alternativa. Isso ajuda muito o pesquisador quando ele tem pouca informação ou quer saber um assunto.

VIII - Desvantagens das perguntas abertas

1. Uma desvantagem importante das perguntas abertas é a dificuldade de classificação e codificação. Diversas pessoas podem dar respostas aparentemente semelhantes, mas o significado pode ser totalmente diferente. Isso dificulta a codificação, pois se o pesquisador colocar tais pessoas em uma mesma categoria, sua análise poderá ficar seriamente viesada. No entanto, o pesquisador não pode trabalhar com inúmeras alternativas, pois a análise se torna quase impossível de realizar. Portanto, o pesquisador deve ter cuidado e bom critério, para trabalhar com perguntas abertas.

2. Existem pessoas que têm mais facilidade para escrever que outras. Isso evidentemente pode afetar a análise de determinado assunto. O problema torna-se mais sério quando os entrevistados pertencem a classes sociais diferentes, por exemplo, camponeses e outros que têm visão das coisas, geralmente, diferente do pesquisador, e utilizam outro vocabulário. Assim, o pesquisador que trabalha com esse tipo de população deve estar familiarizado com seus costumes, condições de vida e vocabulário utilizado. Só assim poderá evitar uma interpretação que possa comprometer gravemente os resultados da pesquisa.

3. Terceira desvantagem é que as perguntas abertas demandam tempo para serem respondidas. Portanto, o pesquisador não deve observar esse tipo de pergunta sob ameaça de cansaço do entrevistado.
 

Em resumo, as perguntas de um questionário podem ser abertas ou fechadas. As duas apresentam vantagens e desvantagens que devem ser constantemente lembradas pelo pesquisador, para evitar análises erradas que rpejudiquem a pesquisa.

B - A APLICAÇÃO DOS QUESTIONÁRIOS

Existem dois métodos para aplicar questionários a uma população:

- contato direto; e
- questionários por correio.

I - Contato direto

O próprio pesquisador, ou pessoas especialmente treinadas por ele,  aplicam o questionário diretamente. dessa maneira, há menos possibilidades de os entrevistados não responderem o questionário ou de deixarem algumas perguntas em branco. No contato direto, o pesquisador pode explicar e discutir os objetivos da pesquisa e do questionário, responder dúvidas que os entrevistados tenham em certas perguntas.

O contato direto pode ser individual ou coletivo. No primeiro caso, as pessoas são entrevistadas individualmente, seja em casa, no trabalho ou na rua. Exemplo: o censo demográfico. No segundo caso, as pessoas são entrevistadas em grupos. Por exemplo, um questionário aplicado a uma turma em sala de aula. O pesquisador deve analisar e discutir com colegas qual dos dois contatos é o mais recomendável para o trabalho em execução.

II - Questionário por correio

O questionário e todas as instruções são enviadas pelo correio a pessoas previamente escolhidas. O pesquisador espera duas ou três semanas para que os instrumentos sejam devolvidos. A partir daí, inicia a etapa de recuperação dos questionários não devolvidos, envia cartas ou telefona às pessoas que não responderam, tentando convencê-las para que os preencham.

A aplicação por correio permite incluir grande número de pessoas e pontos geográficos diferentes. Apresenta, porém, várias desvantagens, tais como a baixa taxa de devolução, normalmente não superior a 70%, e o viés nas respostas dos questionários, pois, geralmente, os formulários são devolvidos pelas pessoas mais interessadas em colaborar. Portanto, a amostra não é aleatória, o que prejudica a análise dos resultados. O pesquisador que utilize esse meio de aplicação deve usar questionários breves, perguntas fechadas e analisar as características dos que responderam imediatamente, comparando-os com aqueles que responderam após a insistência. Isso permitirá controlar possíveis diferenças que possam afetar os resultados da pesquisa.

Outra desvantagem do questionário por correio é que não se pode estar seguro em relação a quem o responde. Foi a esposa com ajuda do esposo? A mãe foi ajudada pelos filhos? Nesses casos, a quem se atribuem as opiniões? Não podem ser consideradas como opiniões individuais. Devem ser atribuídas ao grupo familiar.

 

Notas

1. Para maiores informações, o leitor pode revisar os Capítulos 14 e 15.

2. GOODE, W. & HATT. P. Métodos em pesquisa social. São Paulo, Nacional. 1973. p. 166 e 196.



11 - QUESTIONÁRIO COMO INSTRUMENTO DE INVESTIGAÇÃO