LEITURA 11.4 e 11.5

GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo, Editora Atlas, 1987. Capítulo II. O questionário. Conceituação. Vantagens e limitações do questionário. A construção do questionário. p. 124-132. 




O QUESTIONÁRIO

 

11.1 CONCEITUAÇÃO

 

O questionário constitui hoje uma das mais importantes técnicas disponíveis para a obtenção de dados nas pesquisas sociais. Entretanto, em virtude de haver vários termos que são freqüentemente utilizados como sinônimos, o termo questionário aparece muitas vezes imerso em certa imprecisão. Assim, é comum falar-se em entrevista, formulário, teste, enquête e escala com sentido próprio ao de questionário.

Pode-se definir questionário como a técnica de investigação composta por um número mais ou menos elevado de questões apresentadas por escrito às pessoas, tendo por objetivo o conhecimento de opiniões, crenças, sentimentos, interesses, expectativas, situações vivenciadas etc.

A diferença fundamental entre questionário e entrevista está em que nesta última as questões são formuladas oralmente às pessoas, que respondem da mesma forma. Ocorre, porém, que algumas entrevistas são totalmente estruturadas e são frequentemente designadas como questionário apresentado oralmente. Como já foi lembrado no capítulo anterior, há autores que preferem atribuir a esta técnica o nome de formulário, com o objetivo de distingui-la tanto do questionário quanto da entrevista. No entanto, é muito frequente identificar como formulário todo e qualquer impresso que apresente campos para anotação de dados, não importando se esta ação é desenvolvida pelo pesquisado ou pelo pesquisador.

Na pesquisa psicológica, freqüentemente o questionário é chamado de teste. Isto porque muitos dos questionários apresentam itens que funcionam como estímulos para a obtenção de determinadas reações.

Algumas vezes os questionários são também chamados de enquêtes. Contudo, o termo enquête refere-se com maior propriedade à reunião de testemunhos sobre determinado assunto; o que freqüentemente é feito a partir de questionários, mas não de forma exclusiva.

Por fim, as escalas (que serão detalhadamente analisadas no capítulo seguinte) podem ser definidas como questionários que têm como objetivo a quantificação de fenômenos sociais, tais como opiniões e atitudes.

11.2 VANTAGENS E LIMITAÇOES DO QUESTIONÁRIO

11.2.1 Vantagens do questionário

O questionário apresenta uma série de vantagens. A relação que se segue indica algumas dessas vantagens, que se tornam mais claras quando o questionário é comparado com a entrevista:

a) possibilita atingir grande número de pessoas, mesmo que estejam dispersas numa área geográfica muito extensa, já que o questionário pode ser enviado pelo correio;

b) implica menores gastos com pessoal, posto que o questionário não exige o treinamento dos pesquisadores;

c) garante o anonimato das respostas;

d) permite que as pessoas o respondam no momento em que julgarem mais conveniente;

e) não expõe os pesquisados à influência das opiniões e do aspecto pessoal do entrevistado.

 

11.2.2 Limitações do questionário

- O questionário enquanto técnica de pesquisa apresenta algumas limitações, tais como:

a) exclui as pessoas que não sabem ler e escrever, o que, em certas circunstâncias, conduz a graves deformações nos resultados da investigação;

b) impede o auxílio ao informante quando este não entende corretamente as instruções ou perguntas;

c) impede o conhecimento das circunstâncias em que foi respondido, o que pode ser importante na avaliação da qualidade das respostas;

d) não oferece a garantia de que a maioria das pessoas devolvam-no devidamente preenchido, o que pode implicar a significativa diminuição da representatividade da amostra;

e) envolve, geralmente, número relativamente pequeno de perguntas, porque é sabido que questionários muito extensos apresentam alta probabilidade de não serem respondidos;

f) proporciona resultados bastante críticos em relação à objetividade, pois os itens podem ter significado diferente para cada sujeito pesquisado.

 

11.3 A CONSTRUÇÃO DO QUESTIONÁRIO

A construção do questionário consiste basicamente em traduzir os objetivos específicos da pesquisa em itens bem redigidos. Para tanto é necessário que a fixação dos objetivos tenha sido realizada de forma adequada para garantir sua operacionalização.

A maior parte do que se sabe a respeito da elaboração de questionários decorre da experiência. Resulta daí que boa parte do que se dispõe nesse domínio é constituída por receitas baseadas no senso comum, sem maior apoio em provas científicas rigorosas ou em teorias. Pode-se, no entanto, determinar alguns aspectos que devem ser observados na elaboração dos questionários de pesquisa. Os mais importantes são esclarecidos a seguir.

 

11.3.1 A forma das perguntas

De acordo com a forma, as perguntas podem ser classificadas em três categorias: abertas, fechadas e duplas.

Perguntas abertas são aquelas em que o interrogado responde com suas próprias palavras, sem qualquer restrição. Em virtude das dificuldades para tabulação e análise, perguntas deste tipo são pouco recomendadas em estudos descritivos ou explicativos. Cumprem, no entanto, importante papel nos estudos formuladores ou exploratórios.

Perguntas fechadas são aquelas para as quais todas as respostas possíveis são fixadas de antemão. Há casos em que são previstas apenas as respostas "sim" ou "não" (dicotômicas). Mas há também casos em que as perguntas admitem número relativamente grande de respostas possíveis (múltipla escolha).

As perguntas duplas, por fim, reúnem uma pergunta fechada e outra aberta, sendo esta última freqüentemente enunciada pela forma "por quê?"

 

11.3.2 O conteúdo das perguntas

O questionário, tal como já foi lembrado, é um instrumento adequado para a obtenção de dados referentes aos mais diversos aspectos da vida social. Daí por que as perguntas, em função de seu conteúdo, podem ser classificadas em diversas categorias, como é feito a seguir. Há que se reconhecer, entretanto, que nem sempre as perguntas podem ser colocadas nitidamente numa ou noutra categoria. As distinções entre elas decorrem muito mais de uma questão de hábito ou conveniência do que de rigor técnico.

a) Perguntas sobre fatos

Estas perguntas referem-se a dados concretos e fáceis de precisar, tais como idade, sexo, estado civil, número de filhos, nacionalidade etc. De modo geral, estas perguntas são respondidas com sinceridade, salvo quando o pesquisado possa supor que de suas respostas derive uma consequência negativa para ele, tal como aumento de impostos, desprestígio social etc.

b) Perguntas sobre crenças

Estas perguntas referem-se às experiências subjetivas das pessoas, ou seja, do que as pessoas acreditam que sejam os fatos. São muito utilizadas em questionários cuja finalidade é fornecer dados sobre preconceitos, ideologias e convicções religiosas.

c) Perguntas sobre sentimentos

As perguntas deste tipo referem-se às reações emocionais das pessoas perante fatos, fenômenos, instituições ou outras pessoas. Medo, desconfiança, desprezo, ódio, inveja, simpatia e admiração são alguns dos sentimentos mais pesquisados mediante questionários.

d) Perguntas sobre padrões de ação

As perguntas sobre padrões de ação referem-se genericamente aos padrões éticos relativos ao que deve ser feito, mas podem envolver considerações práticas a respeito das ações que são praticadas. O interesse destas perguntas está em que podem oferecer um reflexo do clima predominante de opinião, bem como do comportamento provável em situações especificas.

e) Perguntas dirigidos a comportamento presente ou passado

O comportamento passado ou presente de uma pessoa é um tipo de fato que ela pode observar de uma posição privilegiada. Entretanto, esse tipo de fato é aqui isolado em virtude do valor que pode ter para a predição do comportamento futuro. O comportamento anterior de uma pessoa em determinada situação constitui sempre indicador expressivo de seu comportamento futuro em situações similares.

f) Perguntas referentes a razões conscientes de crenças, sentimentos, orientações ou comportamentos

Estas perguntas são formuladas com o objetivo de descobrir os "porquês". Embora sejam perguntas simples de serem formuladas, há que se considerar que as respostas obtidas referem-se apenas a uma dimensão desses "porquês": a dimensão consciente.

 

 

11.3.3 A escolha das perguntas

A escolha das perguntas está condicionada a inúmeros fatores, tais como: a natureza da informação desejada, o nível sócio-cultural dos interrogados etc.

Algumas regras para a escolha das perguntas podem ser assim enunciadas:

a) devem ser incluídas apenas perguntas relacionadas ao problema pesquisado;

b) não devem ser incluídas perguntas cujas respostas podem ser obtidas de forma mais precisa por outros procedimentos;

c) devem-se levar em conta as implicações da pergunta com os procedimentos de tabulação e análise dos dados;

d) devem ser incluídas apenas as perguntas que possam ser respondidas sem maiores dificuldades;

e) devem ser evitadas perguntas que penetrem na intimidade das pessoas.

 

11.3.4 A formulação das perguntas

O conteúdo da resposta relaciona-se diretamente à maneira como foi formulada a pergunta. Algumas normas já consagradas a esse respeito podem ser assinaladas:

a) as perguntas devem ser formuladas de maneira clara, concreta e precisa;

b) deve-se levar em consideração o sistema de referência do interrogado bem como o seu nível de informação;

c) a perguntas devem possibilitar uma única interpretação;

d) a pergunta não deve sugerir respostas;

e) as perguntas devem referir-se a uma única idéia de cada vez.

11.3.5 O número de perguntas

Para definir o número adequado de perguntas é preciso levar em consideração o possível interesse dos respondentes pelo tema pesquisado. Entretanto, alguns autores estabelecem como regra geral que o número de perguntas de um questionário não deve ultrapassar a trinta.

11.3.6. A ordem das perguntas

A ordem das perguntas, embora com frequência passe despercebida, tem muita importância. Diversas pesquisas demonstram a ocorrência de contágio das respostas umas pelas outras. Por essa razão, torna-se conveniente dispersar perguntas suscetíveis de contágio.

Também têm sido observados problemas decorrentes de mudanças bruscas do tema. Para evitá-los, torna-se conveniente marcar nitidamente uma parada e recomeçar a preparação para a fase seguinte, fornecendo as explicações necessárias.

 

11.3.7 A prevenção de deformações

Na elaboração do questionário torna-se necessário levar em consideração os mecanismos de defesa social. Estes, de maneira inconsciente, intervêm na situação de resposta a um questionário. O redator do questionário deverá, portanto, estar atento a isso.

A seguir, são descritas algumas das deformações mais frequentes e as medidas que podem ser tomadas para evitá-las.

a) A defesa de fachada

Quando o respondente acredita estar correndo o risco de ser julgado, reage oferecendo respostas defensivas, estereotipadas ou socialmente desejáveis, encobrindo sua real percepção acerca do fato.

Para minimizar esse efeito, convém evitar que o questionário seja iniciado por perguntas que trazem o risco de provocar respostas de fachada. Convém, ainda, formular respostas articuladas, a fim de que se possa verificar a autenticidade de uma resposta a partir de outra, ou chegar à verdadeira resposta por inferência, a partir de questões que isoladamente não trazem o risco de provocar a defensiva.

b) A defesa contra a pergunta personalizada

As perguntas personalizadas, diretas, que geralmente se iniciam por expressões do tipo "O que você pensa a respeito de..." "Na sua opinião..." etc. tendem a provocar respostas de fuga. Nessas circunstâncias são frequentes as recusas ou hesitações do tipo "Não sei", "Não estou seguro" e "Não tenho opinião".

Para evitar as defesas desse tipo, convém não iniciar o questionário por perguntas que provoquem esse tipo de reação. Deve-se também preferir a utilização de perguntas indiretas, quando o tema for delicado.

c) A deformação conservadora

É natural que as pessoas ofereçam certa resistência à mudança. Esta se manifesta pela tendência a responder "sim" de preferência a "não" e também a oferecer respostas indicadoras de conformismo.

Para se prevenir para esta causa de deformação, cuidados especiais devem ser tomados na formulação das questões. Deve-se estar atento sobretudo ao "tom" das perguntas, mesmo em sua simples expressão escrita.

d) O efeito de palavras estereotipadas

Certas palavras, quando colocadas numa pergunta, predispõem as pessoas a respondê-las de forma preferencialmente a outra. Ninguém duvida de que palavras como comunista, nazista, vermelho, crente, burguês são possuidoras de carga emocional suficiente para provocar distorções. Por esta razão, na redação das perguntas, devem ser evitadas as palavras chocantes, efetiva ou socialmente carregadas e substituídas por equivalentes mais neutros.

e) A influência da referência a personalidades de destaque A simples referência a uma personalidade de destaque pode ser suficiente para influir nas respostas, tanto em sentido positivo quanto negativo. Assim, devem ser evitadas, nas questões, referências a pessoas que suscitem simpatia, antipatia, autoridade moral ou desprezo público.
11.3.8 A apresentação do questionário

A apresentação material do questionário merece particular atenção, sobretudo porque as respostas devem ser dadas sem a presença do pesquisador. Como a apresentação material constituí, na maioria dos casos, o mais importante estímulo para a obtenção de respostas, cuidados especiais deverão ser tomados em relação a:

a) Apresentação gráfica

Estes cuidados envolvem o tipo de papel, os caracteres, a diagramação, o espaçamento das questões, a apresentação dos quadros a preencher, dos quadrinhos a assinalar etc. Estes cuidados são importantes para facilitar não apenas o preenchimento, mas também as operações de modificação e tabulação.

b) Instruções para preenchimento

O questionário deve conter instruções acerca do correto preenchimento das questões, preferencialmente com caracteres distintos. Quando se passa de uma parte a outra, não se deve hesitarem imprimir fórmulas de transição.

c) Introdução do questionário

O questionário deve conter uma introdução, seja através de carta em separado, ou de uma introdução apresentada em tipos gráficos especiais. Essa introdução deverá conter informações acerca da entidade patrocinadora do estudo e das razões que determinaram sua realização. A introdução deverá ainda servir para explicar por que são importantes as respostas do consultado e para informar acerca do anonimato da pesquisa.

11.4 O PRÉ-TESTE DO QUESTIONÁRIO

Depois de redigido o questionário, mas antes de aplicado definitivamente, deverá passar por uma prova preliminar. A finalidade desta prova, geralmente designada como pré-teste, é evidenciar possíveis falhas na redação do questionário, tais como: complexidade das questões, imprecisão na redação, desnecessidade das questões, constrangimentos ao informante, exaustão etc.

O pré-teste é realizado mediante a aplicação de alguns questionários (de 10 a 20) à elementos que pertencem à população pesquisada.

Para que o pré-teste seja eficaz, é necessário que os elementos selecionados sejam típicos em relação ao universo, e que aceitem dedicar para responder ao questionário maior tempo que os respondentes definitivos. Isto porque, depois de responderem ao questionário, os respondentes deverão ser entrevistados a fim de se obterem informações acerca das dificuldades encontradas.

O pré-teste de um instrumento de coleta de dados tem por objetivo assegurar-lhe validade e precisão. Como é sabido, no caso do questionário, a obtenção desses requisitos é bastante crítica. Todavia, o pré-teste deve assegurar que o questionário esteja bem elaborado, sobretudo no referente a:

a) clareza e precisão dos termos;
b) forma das questões;
c) desmembramento das questões;
d) ordem das questões; e
e) introdução do questionário.

 

11 - QUESTIONÁRIO COMO INSTRUMENTO DE INVESTIGAÇÃO