LEITURA 08.2

FERNANDES, Florestan. Economia e sociedade no Brasil: análise sociológica do subdesenvolvimento. In: HIRANO, Sedi, Org. Op. cit. Cap. 7. p. 167-92


Economia e sociedade no Brasil: Análise sociológica do subdesenvolvimento

 

Florestan Fernandes
 

 

1. APRESENTAÇÃO

Uma das principais características de nossa era consiste nas grandes transformações por que estão passando os "países subdesenvolvidos". Por várias vias e por meios marcadamente distintos, esses países acordaram para o progresso e se dispõem a superar, com rapidez e decisão, todas as barreiras que os mantinham em estado de estagnação econômica, de atraso cultural e de dependência política. Todos anseiam por anular a distância histórico cultural, que os separa dos "países adiantados", e por realizar, de modo equânime e completo, os ideais de organização da vida humana consagrados pela moderna civilização ocidental.

Isso faz com que esses países depositem enormes esperanças na ciência e na tecnologia científica. Embora seus recursos materiais e intelectuais sejam insuficientes, procuram no conhecimento científico e tecnológico a chave para romper com a perpetuação indefinida de padrões de existência, representados socialmente como anacrónicos, iníquos e indesejáveis. Aquilo que os "países adiantados" conquistaram mediante longos e penosos processos histórico-sociais, eles pretendem alcançar através da transplantação rápida e intensiva das técnicas modernas de pensamento ou de ação.

As experiências, levadas a cabo aqui e ali, demonstram que as coisas não passam, no entanto, de forma tão simples. Duas fontes de dificuldades específicas já são bem conhecidas. De um lado, não é fácil para o homem "sair da própria pele" de um momento para outro. Os fortes anseios de salto histórico esbarram, assim, na herança social e no horizonte cultural preexistentes, os quais filtram e solapam, de modo inexorável, as tentativas e as tendências de inovação sócio-cultural. De outro lado, nem sempre as técnicas, as instituições e os conhecimentos transplantados se ajustam à realidade ambiente. Frutos de outras condições materiais e morais, ou não podem ser reproduzidos eficazmente pela pura imitação, ou se revelam inconsistentes- em relação aos fins visados. Em outras palavras, os bens sócio-culturais transplantados tanto podem transcender à capacidade de atuação organizada dos homens, quanto podem mostrar-se ineficientes em face das "exigências da situação nova".

Por paradoxal que pareça, essas fontes de dificuldades põem os "países subdesenvolvidos" diante de um terrível desafio. Não lhes basta importar certos produtos do conhecimento científico e tecnológico, por mais importantes, refinados ou promissores que sejam. Eles precisam ir além: 1.º) assimilando, de fato, os padrões de pensamento associados à ciência e à tecnologia científica; 2.º) conseguindo condições para colocá-los em prática, de forma efetiva e criadora, nas situações de existência histórico-social em que se encontrem. A alternativa com que se defrontam é, portanto, bem clara e dura. Ou adquirem a capacidade de produzir conhecimentos científicos e tecnológicos originais (se isso for impraticável, de reelaborar profundamente, pelo menos, os conhecimentos científicos e tecnológicos transplantados), ou se vêem impossibilitados de pôr a ciência e a tecnologia científica a serviço dos projetos nacionais de desenvolvimento econômico, social e cultural.

Os resultados de diferentes investigações, patrocinadas principalmente pela ONU, pela UNESCO e pela CEPAL, indicam até que ponto isso constitui uma verdade irrefutável. Resumindo-os, Myrdal evidencia que o simples intercâmbio com os "países adiantados" não contribui para resolver os problemas econômicos, políticos e sociais, que grassam nos "países subdesenvolvidos".

A falta de condições apropriadas e a complexidade dos alvos visados tornam improdutivos ou inoperantes modelos de pensamento e de ação de eficácia comprovada nas situações histórico-sociais em que surgiram e se aperfeiçoaram. Além disso, para "os países subdesenvolvidos" acaba sendo vital manipular meios e fins segundo propósitos que convertem o planejamento em força social. Levando em conta tais razões, Myrdal assevera que "os países subdesenvolvidos têm necessidade urgente de pesquisa social virgem, concentrada em seus próprios problemas práticos, tal como eles aparecem no quadro de suas condições atuais de vida, e também baseada na compreensão das avaliações e aspirações de seus próprios povos". No mesmo tom, salienta que "grande parte da literatura sobre os problemas desses países, produzida nos países avançados, é superficial e estranhamente irrelevante; as preocupações políticas e estratégicas, atualmente dominantes em alguns destes países e nos Estados Unidos em particular, também conferem um colorido que parece estranho e suspeito à grande parte dessa literatura nos países subdesenvolvidos".(1)

À luz de semelhantes argumentos, os "países subdesenvolvidos" deveriam possuir interesse prático específico na expansão das ciências sociais, desde que as pesquisas se concentrassem nos problemas que os afligem e as análises aproveitassem as perspectivas abertas pelos projetos nacionais de desenvolvimento econômico, político e social. Isso não impede que se reconheça, também, que os resultados eventuais de tais pesquisas apresentem enorme interesse científico. As teorias existentes, que podem esclarecer e explicar os processos econômicos e sociais, foram construídas através da observação e da análise de fenômenos ocorridos nos "países avançados". Embora elas se apliquem aos "países subdesenvolvidos" que pertençam ou tendam para o mesmo círculo civilizatório, isso se dá com margens sensivelmente grosseiras de aproximação. A própria ciência tem, assim, muito a ganhar com o conhecimento positivo das situações histórico-sociais que se afastem do tipo normal, em aspectos relevantes para a manifestação de fenômenos essenciais. Parece certo que as descobertas daí resultantes irão permitir a compreensão e a interpretação adequadas dos mecanismos que regulam a expansão da economia capitalista, da sociedade de classes e do regime democrático nos "países subdesenvolvidos".

Tendo em vista razões dessa espécie, vínhamos concentrando grande parte dos projetos de investigação da Cadeira de Sociologia I no estudo macro-sociológico das condições histórico-sociais de desintegração da ordem escravocrata-senhorial e de formação da sociedade de classes no Brasil. A inexistência de recursos financeiros limitavam os projetas, forçando-nos à realização de pesquisas relativamente localizadas no tempo e no espaço. Com a constituição do CESIT, graças às possibilidades criadoras pelo Plano de Ação, formamos uma equipe estável de pesquisadores junto à Cadeira de Sociologia I e iniciamos uma pesquisa mais ambiciosa, sobre a estrutura da empresa industrial em São Paulo. Conjugando o levantamento com base em amostragem ao estudo de casos, presumimos que essa pesquisa vai proporcionar conhecimentos objetivos e precisos sobre: a) a situação global das indústrias aios municípios da Capital, de Santo André, São Bernardo, São Caetano e Guarulhos; b) os caracteres estruturais dos vários tipos de empresa industrial existentes; c) a organização, as tendências de crescimento e as condições de integrarão ao sistema sócio-econômico vigente de empresas consideradas típicas.

Está claro que esse projeto de pesquisa nos levará a conhecer alguns aos aspectos centrais do chamado "Brasil moderno". Pressupondo-se que a empresa industrial constitua a tônica das áreas econômica e socialmente "avançadas" da sociedade brasileira, por meio daquele projeto obteremos a possibilidade de saber aonde chegamos e para onde vamos no processo de expansão da civilização industrial no Brasil. Todavia, para ter-se um quadro de referência bastante amplo, seria indispensável desenvolver, ao mesmo tempo, outras investigações que indicassem o que tais fenômenos significam, encarados de perspectiva nacional. Hoje, já é notório o que a industrialização de São Paulo representa, como sacrifício econômico de todo o país; também, é patente o quanto ela tem sido sofreada e inibida pela situação econômica nacional. Essa correlação parece ser característica de "países subdesenvolvidos", nos quais a industrialização nasce de incentivos econômicos especializados, mas só floresce se a Nação como um todo pode suportar profundos desequilíbrios persistentes, aos quais se vinculam o crescimento econômico rápido de certas áreas e a desorganização de outras. Se os mecanismos de reajustamento nascerem exclusivamente da consolidação espontânea da ordem social competitiva e se o Estado não tiver elementos para intervir contínua e corajosamente no processo, as proporções e os efeitos de tais desequilíbrios alcançam limites máximos e chegam a ameaçar as comunidades nacionais de colapsos econômicos, sociais e políticos. Ainda assim, essa vem a ser a única via para sair-se da estagnação inicial, superá-la e instaurarem-se novos níveis de integração das atividades sócio-econômica. A longo termo, o processo todo só vinga na medida em que possua vitalidade para promover, gradualmente, a correção e a eliminação dos efeitos indesejáveis da mudança rápida, desordenada e iníqua. O essencial é que, tanto as "influências positivas", quanto as "conseqüências negativas" da industrialização de São Paulo apenas se evidenciariam se fosse possível estudar, simultaneamente, outros aspectos sociais do desenvolvimento econômico no Brasil.

Graças à doação feita pela Confederação Nacional da Indústria,(2) pudemos dispor de recursos financeiros para alargar as bases das investigações e considerar outros elementos da situação histórico-social, que nos permitem: 1.º) orientar definidamente as nossas pesquisas na direção da análise sociológica dos problemas de desenvolvimento econômico; 2.º) escolher livremente os focos centrais (por serem relevantes do ponto de vista da estratégia do próprio desenvolvimento econômico) das investigações; 3.º) pensar num quadro de referência mais ambicioso para o aproveitamento teórico final dos resultados da pesquisa sobre a empresa industrial em São Paulo. Após longas reflexões, decidimos que quatro temas, exigindo investigação sistemática imediata, completariam o quadro iniciado com o estudo sociológico da empresa industrial. Esses temas são: a mentalidade do empresário industrial, elemento decisivo para a compreensão do crescimento econômico e das tendências de consolidação da ordem social competitiva na sociedade brasileira; a intervenção construtiva do Estado na criação ou fomento de condições para provocar ou acelerar o desenvolvimento econômico em geral; a mobilizarão da força de trabalho, sob as condições de transição da economia tradicional para a era tecnológica, com vistas para os desequilíbrios econômicos, demográficos e sociais resultantes, bem como para os influxos positivos da racionalização do aproveitamento do fator humano na reintegração da ordem econômica, social e política; os fatores societários residuais do crescimento econômico no Brasil, na forma em que eles se revelam à análise sociológica comparada de comunidades bem sucedidas na instauração da ordem social competitiva. Cada um desses temas será objeto de projetos especiais de investigação, sendo a seguinte a responsabilidade de planejamento, direção e elaboração dos relatórios finais, na seriação em que foram mencionados: Dr. Fernando Henrique Cardoso, com o projeto em fase adiantada de levantamento dos dados; Dr. Octavio Ianni, com o projeto em fase de elaboração e de escolha definitiva dos empreendimentos estatais ou parestatais a serem considerados; Profas. Marialice Mencarini Foracchi e Maria Sylvia Carvalho Franco Moreira, com o projeto em fase incipiente de elaboração; o autor deste relatório, com o projeto na fase prévia de levantamento das comunidades com índices relevantes para a análise comparativa prevista. Nas fases de coleta e análise dos dados, colaborarão nos mencionados projetos os pesquisadores da Cadeira de Sociologia I, licenciados Celso de Rui Beisigel, Leôncio Martins Rodrigues, Gabriel Bolaffi, José Carlos Pereira e Lourdes Sola, com a ajuda de especialistas e auxiliares de pesquisa a serem especialmente contratados. No conjunto, o trabalho programado prevê a redação de quatro monografias independentes e uma análise global, com intentos integrativos e de síntese, dos problemas do desenvolvimento econômico na sociedade brasileira do presente, na qual também serão aproveitadas as conclusões da pesquisa sobre a estrutura da empresa industrial em São Paulo.

 

2. A FOCALIZAÇÃO DOS TEMAS

A análise sociológica tenta compreender e explicar os fatos econômicos como parte da organização da sociedade. As atividades econômicas, como todas as atividades supra-individuais dos homens, são coordenadas e reguladas por mecanismos sociais, o que faz com que a ordem econômica seja uma expressão do padrão de integrarão social do sistema societário inclusivo. Embora ela possa ser abstraída e descrita independentemente das conexões e dos fatores sociais envolventes, segundo fins puramente lógicos e interpretativos, ela não se aplica a um "sistema de relações humanas" autônomo e auto-suficiente. Quando o sociólogo emprega o termo sistema econômico, "tem em mente designar a integração das atividades econômicas à estrutura social", pois "caem dentro do sistema econômico todas as atividades, ações e relações sociais que colocam os indivíduos uns diante dos outros como homines economici".(3) As forças que operam no sentido de diferenciar a economia, seja para reajustá-la continuamente a dado padrão de integrarão da ordem social, seja para amoldá-la às alterações porventura sofridas por aquele padrão, nascem de incentivos, impulsões e motivações regulados por mecanismos sociais. A abordagem sociológica da economia caracteriza-se, assim, pela preocupação básica de assentar a explicação das regularidades econômicas na dinâmica das sociedades humanas. Há quem ponha em primeiro plano outros pontos de vista, de acordo com os quais a análise sociológica da economia se fundaria no modo de entender: ou a natureza dos motivos econômicos no comportamento social dos homens; ou a ordenação institucional das atividades e dos processos econômicos; ou a influência dinâmica (funcional e causal) dos fatores econômicos na reintegração da ordem social. Contudo, essas perspectivas são parciais e decorrem da concepção fundamental que adotamos.

 

Os economistas e os homens de ação negligenciaram largamente a importância e as implicações da análise sociológica da economia. Hoje se sabe a que se prende essa orientação: a análise sociológica da economia se associou, em regra, a atitudes inconformistas diante das formas de organização das atividades econômicas e suas repercussões na estrutura social. Primeiramente, ela eclodiu na interpretação marxista das relações entre a economia capitalista e a sociedade de classes no mundo ocidental moderno; depois, onde as circunstâncias históricas favoreceram a desintegração da ordem social competitiva e a emergência da ordem social planificada, tal análise passou a encontrar crescente acolhida, como requisito intelectual do conhecimento e da manipulação dos fatores sociais do ambiente pelo homem; por fim, nos "países subdesenvolvidos", em geral, patenteou-se claramente que a eficácia dos agentes humanos e o ritmo do crescimento econômico não dependem, apenas, das condições e fatores especificamente econômicos - a sociedade enclausura a economia, sofreando, solapando ou anulando as influências construtivas daquelas condições e fatores. Devemos deter-nos neste aspecto, que nos interessa aqui. Ele sugere que a situação dos "países subdesenvolvidos" suscitou uma crítica sutil das abordagens econômicas clássicas, a qual se fundamenta na observação dos efeitos induzidos nas economias nacionais pelas acomodações econômicas no plano internacional. A essa crítica aderem até as correntes empresariais que empregam o "pensamento liberal" e o "liberalismo econômico" como meios de conquista de autonomia coordenada, mantendo-se fiéis à filosofia da livre-empresa no que respeita à defesa da ordem social competitiva, em que aquela pode florescer.

Tudo isso acontece porque na civilização contemporânea "desenvolvimento" equivale às possibilidades de realizar os requisitos ideais da ordem social competitiva ou da ordem social planificada. Queira-se ou não, ele significa, no mínimo, diferenciação econômica, com base na modernização tecnológica do campo e da cidade, na industrialização, na elevação da capacidade de consumo per capita e do padrão de vida das massas. Esses alvos correspondem, naturalmente, a aspirações sociais contraditórias, mas adquirem homogeneidade e conteúdo nitidamente revolucionário nos "países subdesenvolvidos". Essa afirmação é tão verdadeira, que o chamado "desenvolvimentismo" precisou de um substrato moral próprio, para objetivar-se e expandir-se socialmente: o nacionalismo, que serviu de escudo tanto às medidas de reforma social voltadas para a integrarão nacional, quanto para a proteção artificial do crescimento econômico e para alterações radicais da política econômica internacional dos "países subdesenvolvidos". Nesses quadros, o apelo à análise sociológica intensificou-se rapidamente. De um lado, porque ela permitia "ver mais claro": como e porque os "pontos de estrangulamento" do crescimento econômico se prendiam aos modelos de organização das relações dos homens entre si e à mentalidade com que eles se dispunham a enfrentar "as exigências da situação". De outro, porque seus resultados alargavam, por si mesmos, as bases perceptivas e cognitivas do comportamento social inteligente, conferindo aos homens de ação novos elementos para reconhecer a natureza dos obstáculos e das condições favoráveis do ambiente às inovações empreendidas ou desejáveis. A análise sociológica assumiu, nesse contexto, duas funções nítidas. Ela serve como fator de renovação e de alargamento do horizonte cultural herdado. E serve para apontar o grau de adequação ou de inadequação da estratégia a ser seguida, praticamente, onde a vitalidade do crescimento econômico não é bastante forte para romper com o peso morto do passado. Oferece ensinamentos, em suma, que facilitam os propósitos de libertar a economia dos influxos negativos da herança social e estimulam a orientação de conjugar as inovações econômicas ao planejamento e às reformas sociais.

Daí se deduz que nos "países subdesenvolvidos" ainda prevalece a fórmula segundo a qual "só vê algo sociologicamente, quem quer algo socialmente". A situação coletiva de existência entrelaça o "querer comum" e a "análise sociológica", convertida em instrumento de autoconsciência da realidade. Desse entrelaçamento, resulta que a escolha dos temas de investigação deixa de ser urna operação intelectual totalmente livre. O que importa não é "conhecer qualquer coisa"; mas, aquilo que, nos processos de desenvolvimento em curso, possui real significação para a renovação do horizonte cultural e a solução racional dos dilemas nacionais. Em vista dessas ponderações, procuramos escolher temas significativos na cena histórica brasileira e optamos pelos assuntos mencionados acima. Ainda que outros temas estejam desafiando nossa capacidade de observação e de interpretação, os que pretendemos estudar merecem decidida prioridade, quer por motivos empíricos e teóricos, quer por motivos práticos. Na verdade, o que sabemos a respeito da mentalidade do empresário industrial, das condições e efeitos da intervenção do Estado no desenvolvimento econômico e da mobilizarão societária da força de trabalho em diferentes contextos sócio-culturais da comunidade nacional esclarece-nos muito pouco sobre a realidade dos nossos dias e não nos diz quase nada sobre o que nos reserva o futuro, se persistirmos em "desejar o desenvolvimento" sem uma "filosofia-política desenvolvimentista" apropriada. Se isso não bastasse, o que sabemos é antes produto da rotina e do conhecimento de senso comum, abrindo escassa margem à proposição das questões cruciais, que poderiam acarretar modificações de monta na desordenada estratégia de desenvolvimento econômico que temos seguido.

 

3. O EMPRESÁRIO INDUSTRIAL

Sem que isso envolva em subestimarão dos demais fatores, parece fora de dúvida que o empresário industrial transformou-se na principal figura ativa do crescimento econômico na sociedade brasileira contemporânea. Ainda que tal coisa seja incrível, nada sabemos a respeito das condições de recrutamento, re-socialização e de atuação social do empresário industrial. Entre a proclamação da República, as duas grandes guerras e a implantação de uma mentalidade econômica autenticamente competitiva, ocorreram alterações substanciais na estrutura da economia brasileira e na organização correspondente da sociedade. Nesse ínterim, surgiram condições que revolucionaram os requisitos ideais a que devem responder os empresários industriais como "personalidades-status". Na fase pioneira da indústria, a capacidade de improvisação, a audácia e até certas disposições predatórias eram essenciais para o êxito do empresário e a consolidação da empresa. A experiência corrigia os desacertos e o tirocínio se fazia pela atividade prática, apenas ocasionalmente ligada à aprendizagem anterior. Havia campo propício para as energias viris, por mais toscas que elas fossem, e só os verdadeiramente "duros" encontravam perspectivas de sobrevivência e de prosperidade. Muitos deles explicam a chave da vitória pelos calombos ou deformações do corpo, deixando entrever deformidades análogas na mente e no modo de encarar as coisas, marcando com sua presença o testemunho vivo de um laborioso passado recente. Como tudo estava por desbravar, o mais brutal individualismo conciliava-se com os interesses de inovação econômica da coletividade. Com o correr do tempo, principalmente em conseqüência das transformações sócio-econômicas associadas à última grande guerra, o panorama passou a alterar-se, com lentidão mas também com persistência. As iniciativas da fase pioneira tendem a tornar-se áreas de importância econômica secundária; a rigor, em algumas esferas elas já atravancam o cenário e amortecem o ritmo da diferenciação econômica, aparecendo a necessidade de transferir muitas dessas empresas para comunidades em industrialização incipiente. Doutro lado, dois processos convergentes "limparam" o horizonte cultural dos empresários e "reconstruíram" os quadros histórico-sociais de suas atividades. O grau alcançado pela diferenciação da economia de mercado compele à observância, cada vez mais rigorosa e estrita, de certas normas inexoráveis na ordem econômica competitiva. Ao mesmo tempo, as próprias condições de segurança na expansão da livre-empresa começam a exigir uma compreensão menos egoísta, irracional e imediatista dos interesses envolvidos nas transações econômicas, forçando os empresários a atentar para os problemas relacionados à especialização econômica, à reprodutividade das inversões, aos efeitos induzidos pela modernização tecnológica, à diferenciação e à integrarão do sistema econômico nacional, à consolidação da ordem social competitiva e à estabilidade que ela poderia assegurar à livre-empresa, etc. Essas mudanças são recentes. E não há negar que elas são contrabalançados, negativamente, em larga parte, por fatores inerentes à inflação secular e ao protecionismo unilateral e parcial da industrialização. Mas, elas exigem um novo tipo de empresário, que seja "homem de seu tempo" mais ajustado, intelectual e moralmente, ao complexo mundo econômico da livre-empresa e do capitalismo. Um empresário que perceba como "técnico" os mecanismos econômicos em que se vê inserido, através da empresa industrial, e que reaja como "capitão da indústria" no aproveitamento inteligente das inovações tecnológicas, das oportunidades financeiras e dos arranjos políticos de alcance remoto.

Parece notório que o empresário industrial recebeu o impacto das transformações do ambiente e tentou responder a ele aparentemente com mais flexibilidade e espírito criador que os demais agentes humanos. Mesmo os "pioneiros", da era em que a empresa industrial constituía uma aventura - recrutados entre imigrantes recém-egressos da lavoura e do artesanato ou entre representantes da nossa "burguesia agrária", por igual sem "mentalidade racional industrialista" - tiveram de reajustar seus comportamentos e aspirações ao grau de nacionalidade imposto pela emergência da dominação burocrática ou pela consolidação paulatina da economia de mercado. Doutro lado, várias fontes de alterações das qualificações pessoais dos empresários são facilmente perceptíveis. Primeiro, a camada dos managers, altos funcionários de direção nas indústrias, cresceu de modo contínuo e desde o início foi composta por personalidades com aptidões para a dominação burocrática, para o jogo económico sob a filosofia da livre-empresa e para a compreensão da natureza dos mecanismos econômicos na sociedade capitalista. Segundo, a mobilidade social produziu efeitos secundários construtivos no peneiramento dos empresários, pois a substituição dos agentes humanos revela, em termos da competição entre as gerações em confronto, uma tendência bem definida de melhoria gradual constante das qualificações intelectuais básicas. Terceiro, a expansão de firmas estrangeiras acarretou a transplantação, em bloco, de modelos de organização institucional, de técnicas e de especialistas, o que redundou no aumento quantitativo, do grupo empresarial tecnicamente qualificado e na cristalização de novos focos de referência para a avaliação qualitativa dos requisitos ideais, a que deve corresponder a personalidade do empresário. Quarto, malgrado as interferências notórias de vários fatores desfavoráveis à expansão interna da livre-empresa e à consolidação da ordem social competitiva são imanentes certos efeitos persistentes, que afetam a racionalização progressiva dos modos de entender e de lidar com os "assuntos práticos" no âmbito da empresa, da economia de mercado e da política económica. Apesar disso, somos incapazes de dizer a quantas andamos. Excluindo-se as manifestações das associações patronais e dos órgãos das empresas-chaves, não dispomos de elementos seguros para saber como o empresário industrial define e representa, socialmente, suas responsabilidades específicas. Para dizer o menos: isso é espantoso! Dado o volume de sacrifícios que a Nação se empõe para promover sua industrialização e acelerar o desenvolvimento econômico, dado o interesse nacional de orientar as aplicações ou as reaplicações de capital da forma mais produtiva para esses objetivos e dadas as consequências de longo alcance inevitavelmente vinculadas às atividades do empresário industrial, o principal requisito estrutural e dinâmico para disciplinar o crescimento econômico nos quadros da livre-empresa consiste em ajustar o empresário à magnitude de suas tarefas e responsabilidades. Como conseguir isso, sem saber previamente o ele pensa e como age, na realidade, diante das exigências da situação?

 

4. ESTADO E DESENVOLVIMENTO

Reflexões análogas podem ser feitas com referência à intervenção do Estado na vida econômica nacional. Ninguém ignora que o estado brasileiro, após a Independência, sempre demonstrou interesse ativo pelo crescimento econômico, procurando fomentá-lo de várias maneiras, principalmente através de medidas de proteção direta ou indireta do produtor nacional. Contudo, na situação dos "países subdesenvolvidos", com freqüência a ação do Estado é duplamente contida pela ordem legal que ele encarna. De um lado, os modelos de ordenação e de legitimarão do poder político, transplantados dos "países avançados", oferecem margem a sérias ambigüidades e até a contradições pitorescas no ajustamento da ordem legal às condições reais de existência social. De outro, a escassez de recursos afeta as finanças e deteriora a capacidade de atuação do Estado, conseqüências agravadas pela indisciplina administrativa e pela dissipação improdutiva reinante nos gastos oficiais. A relação entre as inconsistências da ordem legal e os entraves resultantes da escassez de recursos faz com que os efeitos negativos se multipliquem: seja porque a carência de recursos essenciais contribui para manter a ineficácia das instituições políticas, seja porque as deficiências institucionais dificultam o melhor aproveitamento dos recursos mobilizáveis. O Brasil não escapou à regra, embora represente uma alternativa digna de consideração especial. É provável que poucos "países subdesenvolvidos" apresentem idêntico panorama de equilíbrio político. As idéias, as técnicas e as instituições políticas importadas sempre foram reproduzidos com nítido senso de medida, o qual favoreceu o predomínio de uma visão realista das coisas. Onde as fórmulas ideais transcendiam às possibilidades de situações concretas, elas foram relegados ou redefinidas; onde os fatos inexoráveis da vida política ameaçaram aquelas fórmulas em sua substância, elas encontraram lugar para perpetuar-se na consciência social dos homens como algo digno de ser conquistado. Não obstante, a estratificação da sociedade brasileira imprimiu à evolução do Estado moderno no Brasil feições peculiares, mais ou menos aberrantes em face dos modelos fornecidos pela experiência histórica dos "países avançados". Malgrado o predomínio de inspirações liberal-democráticas, desde o I Império até a III República, o Estado assumiu imensa variedade de encargos e segundo tal volume, que ele bem poderia ser uma expressão do Welfare State hodierno, não fora a ausência da filosofia política correspondente e a falta de um estilo de ação apropriado.

Essa conclusão leva-nos, queiramos ou não, a perguntas embaraçosas, que devemos ter a coragem de formular e de responder se aspiramos, de fato, erigir uma autêntica política de desenvolvimento econômico, social e cultural. Como se explicam semelhantes tendências, que produziram um aparelho estatal que ostenta inegável gigantismo em suas atribuições mas que padece de atrofia em sua constituição interna? Entre muitas outras, duas razões esclarecem razoavelmente o que aconteceu. Os pesados encargos, assumidos em escala crescente pelo Estado brasileiro, não nasceram da diferenciação e da vitalidade "normais" das instituições políticas. Ao contrário, surgiram como produtos fatais do pauperismo econômico e das inconsistências básicas do nosso padrão de "nacionalismo". Assim, o Estado teve de tomar iniciativas premido pela miséria imperante e pela pressão de interesses incontidos nos limites das conveniências da Nação como um todo. Onde ele não cuidou dos problemas da instrução, das vias de comunicação, dos transportes da assistência pública, etc., as comunidades humanas ficaram entregues a um triste desamparo. Ou os serviços em causa não apareceram, ou eles se constituíram, porém, fora e acima do alcance das massas. As camadas dominantes nunca desdenharam dos grandes problemas nacionais e do seu agravamento. Nem poderiam fazê-lo, pois isso acarretaria transtornos do equilíbrio social e prejuízos para seus interesses imediatos. Contudo, as concepções nacionalistas, imperantes em seu seio, não se associaram à objetivação de obrigações cívicas imperativas nem impuseram atitudes de identificação, de zelo intocável e de desprendimento perante o poder público. Em conseqüência, os círculos sociais em condições de empalmar a autoridade e de exercer o poder político fizeram de ambas as coisas um privilégio, manipulando-os livremente, sem restrições nascidas de convicções íntimas ou da fiscalização exterior.

Dois resultados mercantes advieram dessa situação. Primeiro, as mesmas pessoas (ou grupos de pessoas), que patrocinavam os interesses privados na estrutura de poder da sociedade, decidiam sobre eles em nome do Estado, como se fossem, legitimamente, questões de interesse público. Esse procedimento caracterizou, inicialmente, a mentalidade política da nobreza agrária do Império - e as coisas não podiam passar-se de outra forma, em vista do que deveria suceder combinando-se a monarquia constitucional à dominação patrimonialista. Como tal procedimento jamais chegou a ser conjurado pelos efeitos da democratização da riqueza, da autoridade e do poder, ocorrida nos últimos cento e quarenta anos, ele se arraigou, perdurando através do "coronelismo" e do "desenvolvimentismo". Segundo, as medidas que promoviam o alargamento e o aprofundamento da intervenção do Estado adquiriam o caráter de mero expediente para enfrentar emergências - enfim, uma sorte de mal necessário. Se elas conviessem aos interesses das camadas dominantes, sua observância indefinida passava a ser "algo natural". Em caso contrário, assim que os encargos supervenientes deixassem de ser onerosos ou se tornassem compensadores, sufocavam-se os empreendimentos oficiais, atrofiando-os, paralisando-os e transferindo-os simultaneamente para a esfera da iniciativa privada. É preciso ter em mente, na interpretação desses processos, que eles contêm duas facetas distintas. Sob a perspectiva do crescimento econômico, não havia outra saída, em um país como o Brasil, senão a de favorecer-se desproporcionalmente os direitos e as garantias sociais (logo concebidos como privilégios e preservados como tal ) do setor da Nação dotado de vitalidade econômica. Apesar de todas as inconveniências e da iniquidade dos arranjos políticos em que se envolvia o Estado, os efeitos deles sobre o crescimento econômico, a curto e a longo prazo, parecem ter sido construtivos. Sob a perspectiva do desenvolvimento do Estado republicano, entretanto, é patente que a adoção de procedimentos menos egoísticos e imediatistas (igualmente conciliáveis com os interesses das camadas dominantes), teria facilitado a transição da ordem escravocrata-senhorial para a ordem social democrática e, especialmente, teria contribuído melhor para a consolidação do regime democrático de governo.

Parece não subsistir dúvida de que é possível conciliar a aceleração do desenvolvimento econômico com o comportamento egoístico de grupos sociais privilegiados. O exemplo mais conhecido, a respeito, é fornecido pela revolução econômica no Japão. Uma nobreza altamente ciosa de seus privilégios conseguiu manipular o Estado de modo a satisfazer seus interesses exclusivos e a instigar um dos mais prodigiosos "saltos" nas áreas da modernização tecnológica e da industrialização, registrados na história recente. Todavia, no Brasil as ocorrências tomaram outro rumo. Os grupos sociais privilegiados se empenharam, obstinadamente, em reduzir a variedade das inovações, em segmentá-las e em circunscrever o ritmo dentro do qual elas poderiam desenrolar-se. No fundo, agiram como se temessem arriscar sua posição na estrutura de poder, se desencadeassem e estimulassem mudanças tecnológicas e econômicas rápidas e profundas. O critério básico, na seleção das inovações praticáveis ou recomendáveis, consistiu no grau de compatibilidade existente entre elas, a maneira de realizá-las socialmente e a persistência do status quo. Há, aí, um rígido sistema de filtragem das inovações, que mal correspondia aos desígnios socialmente abertos e conscientes dos seus patrocinadores, e que as conciliava com soluções contraditórias preexistentes (o que se evidencia quando se compara as medidas tomadas para intensificar a acumulação de capital, a industrialização, a expansão da economia de mercado, etc., com a tolerância ativa diante de uma estrutura agrária tão anacrônica quão iníqua ou com a negligência em face da reforma social e educacional). O pior é que esse tipo de "jogo político" indica que estamos diante de uma concreção de grupos sociais privilegiados, cuja composição só é possível através do equilíbrio mecânico das forças que eles representam. Em quaisquer circunstâncias mais graves, o resultado previsível é um só: a anulação ou a mitigação das tendências inovadoras pelas tendências conservantistas, como se o "Brasil arcaico" devesse sempre preponderar sobre o "Brasil moderno", principalmente nos processos que afetam o futuro da Nação.

Desse ângulo, a orientação observada pelas camadas conservadoras aparece como inadequada, imprópria e perigosa. Pelo que se pode inferir da análise dos fatos, existe grande similaridade entre a situação brasileira do presente e a sociedade norte-americana da fase do "arranco econômico" do capitalismo nos Estados Unidos. Isso significa que temos de pensar e resolver os problemas do desenvolvimento econômico, em termos políticos, com vistas para os requisitos estruturais e dinâmicos da ordem social democrática e da organização do poder político que ela engendra - o Estado democrático. Sendo assim, para nós vem a ser essencial, como condições político-sociais do desenvolvimento econômico: 1.º) a democratização da autoridade, do poder político e do aparelho estatal; 2.º) a modernização efetiva do Estado e dos serviços públicos estatais ou parestatais. A primeira condição é a única que permitiria quebrar a cadeia invisível, que nos prende ao passado e ao antigo regime, e que nos põe em risco de converter o "desenvolvimentismo" em fator de perversão do regime republicano no sentido de uma plutocracia. Somente a democratização da autoridade, do poder político e do aparelho estatal poderia abrigar-nos deste risco e, ao mesmo tempo, conferir ao Estado republicano a capacidade de agir, de forma crescente, em nome dos interesses da coletividade como um todo. A segunda condição, por sua vez, constitui o requisito para se promover o expurgo gradual de procedimentos político-administrativos anacrônicos e para introduzir-se a racionalização, dentro de limites máximos, nas atividades e realizações construtivas do Estado republicano. Essa condição é crucial, tanto para pôr-se um paradeiro ao desperdício e à subutilização de recursos escassos, quanto para resguardar a autonomia da intervenção estatal em " assuntos práticos". Se ela não ocorrer em conexão com a condição anterior, será improvável que consigamos combater o atraso econômico, social e cultural sob a égide de uma verdadeira política democrática de desenvolvimento econômico, capaz de conjugar planejamento, crescimento econômico acelerado e justiça social. Como refletir-se sobre tais questões e praticar as opções que elas exigem, sem estudar, previamente, de maneira criteriosa e objetiva, o que tem feito o Estado republicano para democratizar-se, modernizar-se e preencher suas funções na sociedade brasileira da atualidade?

 

5. MOBILIZAÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO

"0 homem é a medida de todas as coisas". Como se poderia aplicar essa presunção aos "países subdesenvolvidos"? Neles, não é só a técnica que falha e se mantém em níveis civilizatórios muito baixos. O homem vem a ser o principal veículo e instrumento da estagnação econômica, social e cultural. Entenda-se bem: não se trata apenas do homem rude e inculto do campo, mas, outrossim, do homem letrado e culto da cidade. Em regra, o fator humano é abundante e seu desperdício faz parte da rotina da vida. Ainda não dispomos de uma história cultural do trabalho humano no Brasil. Contudo, podemos levantá-la, com relativa facilidade, estudando as diferentes constelações de existência social que compõem a paisagem humana brasileira. Do indígena, do caboclo e do agregado ao sitiante, ao operário e ao gerente, percorremos toda a gama de transformações no uso social das energias físicas, intelectuais e morais do homem, que separa a "aldeia tribal" da "metrópole". O importante a considerar-se, através dessas transformações, é que as formas de estratificação social, produzidas pela colonização e pela escravidão, degradaram o trabalho, e que é recente a sua representação como "um valor social" e fonte da "dignidade humana". Em conseqüência, há toda uma tradição cultural, que nos leva a negligenciar e a subestimar o único capital de que estamos supridos com relativa abundância - o corpo humano, com suas imensas e versáteis possibilidades técnicas. Nada existe de espantoso, portanto, no fato da mobilizarão da força de trabalho ficar aquém até dos limites potenciais de cada forma de organização da vida humana que experimentamos historicamente. Excetuando-se os indígenas (em particular: da fase pré-cabralina ou que se mantiveram em isolamento da "civilização"), nos estilos de existência social dos demais agrupamentos humanos sempre prevaleceu alguma sorte de devastação do homem ou de subaproveitamento de suas capacidades físicas, intelectuais e morais. Do trabalho escravo ao trabalho livre realizamos todo o progresso aparente da civilização moderna, sem conseguirmos jamais conferir ao trabalho as funções dinamizadoras que ele deveria desempenhar como fator social construtivo.

Aí parece estar o ponto nevrálgico de nossa situação. A chamada Revolução Industrial nunca foi um episódio exclusivamente tecnológico e econômico. Em todos os países em que ocorreu, foi amplamente precedida e completada por uma revolução de mentalidade, que colocou o trabalho no próprio eixo material e moral da vida humana. O homem se impôs um ritmo mais duro e disciplinado em suas atividades produtivas, ao mesmo tempo em que procurou exceder, continuamente, os níveis de produtividade atingidos. Ora, à primeira vista, o panorama brasileiro sugere que ainda estamos, inclusive nos grandes centros urbanos e econômicos do país, no limiar dessa revolução de mentalidade. Tudo se passa como se as alterações sucessivas afetassem mais as expressões exteriores da vida social organizada, que a natureza profunda dos agentes humanos envolvidos. Persistem sempre, como dados fundamentais, duas tendências mercantes, quaisquer que sejam as demais transformações: o subaproveitamento das potencialidades construtivas do trabalho dentro da constelação histórico-social de organização da vida humana que se considere; e um ritmo lento e retardado de envolvimento dos homens nas atividades que possam consumir, produtivamente, suas energias físicas, intelectuais e morais. A transição de uma constelação de organização da vida humana para outra tem acarretado efeitos racionalizadores patentes, como se pode verificar contrastando a utilização social do trabalho nas áreas de economia de subsistência com as de economia de mercado (ou mesmo, acompanhando as gradações inerentes à mobilidade ocupacional de populações migrantes). Contudo, cada forma nova de integração da vida social alcança seu ponto de equilíbrio em condições que "não exigem o máximo" e asseguram a perpetuidade daquelas duas tendências. Isso faz, indubitavelmente, com que o "progresso real" seja sempre pequeno e bem menor do que se pensa, contando como mero produto dos efeitos dinâmicos das transplantações culturais bem sucedidas. O "salto histórico" fica, em cada passo, limitado pela capacidade de importar técnicas, instituições e valores sociais. Estabelecida a nova rotina, o homem não procuraria rompê-la pelo esforço criador independente, na invenção e correlata utilização originais de novas formas de trabalho.

Em conseqüência, estamos sempre às voltas com os efeitos cataclísmicos iniciais da implantação de novos estilos de vida seja através da mobilidade da fronteira histórica e econômica, seja graças às revoluções ocorridas nos padrões de integrarão da ordem social. Cada fase de inovação econômica, tecnológica e social acarreta deslocamentos demográficos internos e perturbações severas no equilíbrio das formas de vida social afetadas. Parece evidente que a correção de efeitos desta magnitude requer mudanças profundas na estrutura da sociedade brasileira como um todo. Uma coisa, porém, é certa. Para reduzirem-se as proporções desses fenômenos, seria necessário estabelecer um padrão de integrarão da sociedade nacional que entrosasse todas as comunidades humanas brasileiras nos fluxos da ordem econômica, social e política emergente. Ainda que outras influências interfiram nesse processo, a sua continuidade, o seu ritmo e a sua direção dependem, essencialmente, do lugar que se der ao trabalho como fator social construtivo. Se só pudermos efetuar "saltos históricos" através da transplantação de novas formas de organização e de mobilizarão do trabalho, nunca deixaremos de ser um "país subdesenvolvido", porque nunca conquistaremos autonomia de crescimento. Se, ao contrário, conseguirmos graduar, definitivamente, os "saltos históricos" à capacidade que se fizer necessária para entender e manipular as energias humanas, teremos um ponto de partida para converter o Brasil em centro de elaboração independente da civilização da "era tecnológica". Portanto, o trabalho, com as complicadas questões que ele nos coloca, ergue-se como a esfinge que nos separa (e às vezes também nos afasta) das verdadeiras respostas aos problemas do subdesenvolvimento econômico, social e cultural. Falando cruamente, a distância entre os "países subdesenvolvidos" e os "países adiantados" provém da capacidade relativa de cada um deles em face da mobilizarão do trabalho como fator social construtivo, em todas as funções que ele precisa preencher na civilização moderna. Essa capacidade simboliza, em última instância, como cada um deles mobiliza os homens para a vida, transfigurando-os em agentes úteis e produtivos do seu próprio destino histórico. A importância do estudo acurado da situação em que nos achamos presentemente, a esse respeito, e dos dilemas que temos de enfrentar e de resolver, dispensa qualquer comentário ou justificação.

 

6. DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E MUDANÇA SOCIAL

Os processos econômicos exigem certos hábitos, certos comportamentos e aspirações sociais, certas instituições, certos modos de organizar a convivência humana em sociedade. Cada tipo de sociedade aparece, pois, como uma espécie de "organismo", dentro do qual se desenrolam as atividades econômicas, e que recebe delas, por sua vez, a revitalização constante dos processos que suportam a continuidade e as alterações sucessivas das bases materiais da própria ordem societária. Esse raciocínio é válido tanto para a economia natural mais simples da aldeia tribal, quanto para a economia capitalista mais complexa da metrópole e do mercado internacional. Quando se pensa nesta última, porém, as reflexões incidem sobre um tipo de economia que requer as mais delicadas, refinadas e complicadas condições psicossociais e sócio-culturais imagináveis. Os hábitos, os comportamentos, as aspirações sociais, os quadros institucionais e os modelos de organização societária da convivência humana, que ela reclama, impõem ao homem o domínio de vasta e variada herança social, em termos da capacidade de aplicar técnicas sociais já descobertas e de inventar outras, suscetíveis de submeter a controle societário as "novas exigências da situação", com os respectivos problemas histórico-sociais. Nesse sentido, pode-se dizer que a normalidade e a vitalidade dos processos econômicos dependem, de forma muito estreita, das condições estruturais e dinâmicas que a sociedade de classes oferece à economia capitalista. Os economistas têm analisado esses processos econômicos em si mesmos, sob a hipótese geral e legítima de que, "dadas certas condições", os componentes e os fatores do sistema econômico tenderão a comportar-se de determinada maneira. Contudo, quer as condições pressupostas se dêem ou não (e principalmente quando elas deixam de dar-se), convém saber o que se passa além e acima das descrições e interpretações obtidas mediante a referida hipótese. O grau de racionalização das atividades econômicas na "era tecnológica e do planeamentos vem orientando e concentrando a inteligência do homem nos fatores condicionantes, que operam como influências reguladoras incontornáveis dos processos econômicos. Na situação brasileira, encarar as coisas desta maneira equivale a responder racionalmente aos apelos da realidade, pois a difícil formação paulatina das condições "normais" da economia capitalista pode ser auxiliada e intensificada pelo recurso a controles voluntários de comportamentos ou de efeitos dos fatores psicossociais e sócio-culturais, condicionantes e reguladores dos processos econômicos,

Isso nos obriga a dedicar não só maior atenção a e , esses fenômenos, mas a encará-los de um ângulo novo. A tendência menos, descrevê-los e a interpretá-los no plano restrito da reconstrução empírica é insatisfatória. Doutro lado, a tendência a assimilá-los (pelo raciocínio analógico ou pela simples transferência de conhecimentos teóricos), ao que ocorre no funcionamento ou no desenvolvimento da economia capitalista nos "países avançados", possui o inconveniente substancial de deixar na penumbra ou inobservados alguns fatos decisivos, que permitem registrar como processos econômicos, universais no regime capitalista de produção, assumem feições peculiares na cena brasileira. Para evitar-se ambos os escolhos, seria preciso que se buscasse uma interpretação que contivesse o grau de generalidade dos modelos de explicação teórica, sem perder de mira os fatos ou ocorrências pertinentes a uma sociedade "subdesenvolvida". Parece que se resolveria essa dificuldade estudando-se, comparativamente, o desenvolvimento econômico recente de certas comunidades brasileiras, que revelam graus diversos de participação das tendências de implantação da economia capitalista no Brasil. Vários índices demonstram que a desintegração do "antigo regime" não se processou nem se está processando de maneira homogênea e uniforme em todo o país, e que a emergência e a consolidação da "nova ordem social" tendem a processar-se de modo mais intenso em algumas áreas que em outras. Há fundamento, portanto, para uma suposição de caráter geral: as condições psicossociais e sócio-culturais do ambiente têm interferido de forma extremamente variável na configuração do ritmo e na seleção dos efeitos dos processos de crescimento econômico. Em algumas comunidades, a implantação de uma economia urbana de base artesanal ficou contida ou sofreada. Em outras, expandiu-se até chegar ao extremo de modernização tecnológica ostentado pela indústria paulista. Se nos interessa explicar, sociologicamente, o "subdesenvolvimento econômico" sob a perspectiva da sociedade brasileira, esse ângulo nos daria meios para focalizar e analisar como a ausência de requisitos estruturais e funcionais, de natureza psicossocial e sócio-cultural, tem-se refletido e tenderá a refletir-se em nossas tentativas de implantar uma economia capitalista no Brasil.

Se os anseios de "aceleração do desenvolvimento" não se reduzirem a meras verbalizações, é essencial que se proceda a estudos desse gênero. Os economistas vêm fazendo sugestões técnicas e práticas do maior alcance para a coordenação e a aplicação de uma autêntica política de crescimento econômico. Todavia, a compreensão e a aceitação de semelhante política esbarram em vários tipos de obstáculos. Há pouco ou nenhum conhecimento dos meios; e, por conseguinte, negligência total dos riscos corridos em programas que prevêem inovações sem o conhecimento necessário dos fatores interferentes, de seus efeitos negativos ou nocivos e da estratégia recomendável, dadas certas possibilidades limites de mobilizarão de recursos materiais e humanos. Na verdade, procedemos como se fosse imperioso agir racionalmente em uma esfera central - a da manipulação das medidas financeiras e econômicas - e se fosse irrelevante o grau de irracionalidade inerente às demais fases do processo, da divulgação à aplicação e à correção daquelas medidas, com a manipulação à altura dos outros "elementos da situação". O resultado final dos frutos que colhemos é patente. Primeiro, no vasto (e por vezes até criminoso) desperdício de recursos sumamente escassos nas principais iniciativas do poder público para criar condições essenciais à industrialização, à expansão da economia de mercado e à modernização tecnológica da agricultura ou de outros ramos da produção. Segundo, na orientação seguida pelos círculos privados no aproveitamento dos benefícios da política de desenvolvimento econômico, posta em prática oficialmente: só agora começam a tomar alento certas inspirações, que tentam "valorizar nacionalmente" os interesses da coletividade como um todo, embora prevaleçam, como regra, ajustamentos iníquos na apropriação daqueles benefícios pelos empreendedores. A questão crucial, ainda aqui, é a mesma. A "aceleração do desenvolvimento econômico" requer uma mentalidade específica e comportamentos correlatos apropriados. Ambas as coisas apelam e supõem o conhecimento objetivo dos "fatos inexoráveis". Se soubermos "como" e "porque" a nossa concepção do mundo, a nossa herança social e o nosso estilo de vida têm contribuído para reduzir a nossa capacidade de tirar proveito sistemático das inovações, 0redefinir a estratégia que observamos até agora. Ninguém negaria que ela foi parcialmente frutífera. Basta que se atente para o que se conquistou, em condições tão adversas, para se verificar que ela nos colocou na rota certa. Entretanto, aquela estratégia comporta aperfeiçoamentos essenciais, boa parte deles percebidos pelos homens de ação ou apontados pelos economistas. Cabe a todos os brasileiros, cônscios de seus deveres cívicos, empenharem-se no sentido de que eles sejam executados com a rapidez e a eficácia possíveis. Os sociólogos compartilham dessa obrigação fundamental e podem corresponder a ela, contribuindo para esclarecer, de alguma forma, "como se passam as coisas".

 

7. PERSPECTIVAS EMPÍRICAS, TEÓRICAS E PRÁTICAS

Eis aí, em traços sumários e sem nenhuma pretensão de rigor técnico, o que se pretende conseguir, através dos programas elaborados e em realização pela Cadeira de Sociologia I, através do Centro de Sociologia Industrial e do Trabalho, com os fundos que lhe foram doados pela Confederação Nacional da Indústria. Para levá-los a termo, teremos de empenhar-nos em projetos de pesquisas que irão absorver, em cada caso, de dois a três anos de trabalho em equipe. Isso significa que as quatro monografias parciais serão entregues dentro desse período de tempo e que a contribuição integrativa final só poderá ser elaborada dentro de um prazo aproximado de quatro a cinco anos.

O que pensar, no conjunto, das cinco obras previstas? No estado atual da Sociologia no Brasil, elas representam um notável avanço na tentativa de concentrar nossos esforços na observação e na interpretação de problemas sociais de significação nacional. Se os estudos forem concluídos de acordo com as previsões, o presente programa constituirá um marco nesse sentido, mostrando que os sociólogos podem cooperar ativamente, como e enquanto cientistas, no debate e esclarecimento das grandes questões que ameaçam a segurança, desafiam a coragem e encobrem o futuro da própria coletividade.

Isso não impede, porém, que tais obras possuam uma importância definida para a Sociologia. Sob esse aspecto, caberia ventilar algumas presunções, nos vários níveis em que se poderia apreciar o alcance de uma contribuição científica, com o fito exclusivo de situar as implicações e o significado dos alvos a serem atingidos.

Em primeiro lugar, os resultados das investigações permitirão ampliar nossos conhecimentos empíricos sobre atitudes e motivações inerentes ao comportamento econômico do empresário brasileiro na atualidade; sobre algumas das principais iniciativas do Estado republicano para amparar, estimular ou promover diretamente o crescimento econômico no Brasil; sobre as condições em que se processa e as influências que inibem ou expandem a mobilização da força de trabalho na sociedade brasileira; sobre os fatores extra-econômicos que condicionam e regulam, negativa ou positivamente, a graduação do desenvolvimento do capitalismo e da instauração da ordem social competitiva em comunidades brasileiras "avançadas". Em segundo lugar, esses conhecimentos oferecem novas perspectivas para a proposição e a análise de problemas especificamente teóricos. Está claro que eles possibilitam reconhecer e explicar, em cada um desses níveis da realidade, o que ocorre na sociedade brasileira na atual fase de transição. Além disso, permitirão o exame sistemático de questões que só agora começam a interessar definidamente os cientistas sociais. Se as investigações puderem ser conduzidos a bom termo, elas contribuirão para ensejar apreciável avanço na elaboração de uma teoria sociológica do subdesenvolvimento econômico. Em terceiro lugar, os conhecimentos empíricos e teóricos que lograrmos obter dizem respeito a problemas sociais que se vinculam aos processos de mudança que irão decidir, historicamente, do "destino" do Brasil nos quadros da civilização de que participamos. Não só os homens de ação e os intelectuais, mas todos os círculos sociais da sociedade brasileira estão vivamente empenhados em conquistar meios para submeter esses problemas a controle social ou, pelo menos, para reduzir os seus efeitos nocivos sobre a industrialização, o crescimento econômico em geral e a expansão da ordem social democrática. Trata-se, pois, de conhecimentos previsivelmente aproveitáveis pelos agentes humanos, que se defrontam no plano do comportamento coletivo com aqueles problemas sociais, e que podem, por conseguinte, melhorar a qualidade da reação societária diante das "exigências da situação".

Em suma, mesmo do ponto de vista estritamente científico, os projetos de investigação sociológica, que nos propomos realizar, correspondem a móveis relevantes e produtivos. Além de orientar-nos para tarefas intelectuais que pressupõem um verdadeiro "salto histórico" no desenvolvimento da Sociologia no Brasil, asseguram-nos a perspectiva de contribuirmos, vantajosamente, para o progresso da teoria sociológica em um campo no qual os conhecimentos teóricos possuem enorme interesse prático.

 

(l) Gunnar Myrdal, An Internacional Economy. Problems and Prospects, Routledge & Kegan Paul Ltd., Londres, 1956 (especialmente capítulo XII; citação extraída da página 199).

(2) Essa doação foi conseguido graças à compreensão revelada pela Junta Administrativa da Confederação Nacional da Indústria a um pedido da Cadeira de Sociologia I, que mereceu o alto patrocínio do Governador Carlos Alberto Carvalho Pinto, do reitor Dr. Antonio Barros de Ulhoa Cintra e do engenheiro Fernando Gasparian, então membro da referida Junta.

(3) Florestan Fernandes, A Economia Tupinambá. Ensaio de interpretação sociológica do sistema econômico de uma sociedade tribal, Revista do Arquivo Municipal, S. Paulo, N.º CXXII, p. 8 e 9.

 


8 - PROJETO DE PESQUISA